365 Dni, da Netflix, é abuso disfarçado de romance

365 Dni, novo filme da Netflix, em linhas gerais conta a história de um mafioso que resolve sequestrar uma mulher para que em 365 ela se apaixone por ele. O longa baseado no romance polonês de Blanka Lipinska, vem chamando atenção, sendo romantizado e chegou ao número um entre os assistidos da semana na plataforma.

Massimo Torricelli sequestra Laura Biel, por quem ele tem uma fixação doentia, e lhe dá 364 dias para que ela se apaixone por ele. Durante a “proposta”, ele afirma que não irá a forçar a nada, contudo, além de mantê-la em cativeiro, Massimo é violento, abusivo sexualmente e a trata como uma propriedade material, isso para dizer o mínimo e não entrar nos detalhes desprezíveis trazidos pelo longa.

Os artifícios utilizados pela Netflix para transformar uma história nítida de abuso em um romance são, sem uma palavra melhor, nojentos. Aliás, é isso o que a existência desse filme causa em nós, uma repulsa. Um ator extremamente bonito, cenários elegantes e surreais e belos figurinos romantizam, inclusive, a Síndrome de Estocolmo – afeição pelo seu agressor – que a personagem feminina desenvolve pelo seu sequestrador.

A trama não faz a mínima questão de discutir o quão absurdo toda essa situação é. O filme manipula, distorce e joga na lata de lixo a palavra “consentimento”. Com obras neste nível, a Netflix cumpre um completo desserviço e o que vemos é uma infinidade de mulheres afirmando que queriam ser sequestradas e abusadas pelo personagem.

Estamos diariamente batendo na tecla contra o assédio, buscando educar mulheres para reconhecerem seus assediadores e agressores, que na maioria das vezes estão travestidos de homens sensíveis, cordiais e gentis. Nessa altura da luta feminista, é lamentável que um filme naturalize o abuso. Não importa se o agressor é bonito e rico, se o cenário é impecável, ele continua sendo um agressor.

Mas já que o filme vem chamando a atenção do público, talvez essas sugestões causem um pouquinho mais de reflexão. Nesse caso, os sequestradores são também extremamente cruéis, mas talvez sem a beleza e os cenários, seja possível enxergar a realidade por trás de uma situação dessas:

Encaixotando Helena (1993)

Nick Cavanaugh (Julian Sands), um famoso cirurgião, fica obcecado pela beleza de Helena (Sherilyn Fenn), uma prostituta. Ela o rejeita, mas mesmo assim ele tenta convencê-la que um necessita do outro. No entanto ela tem outros planos, mas acaba sendo vítima de um terrível acidente que a deixa nas mãos do médico, que tem então uma macabra idéia para não mais perdê-la.

O Colecionador (1965)

Freddy, um rapaz solitário, em sua obsessão por uma mulher, aprisiona-a no porão de sua casa. Ele quer criar vínculo afetivo com a moça, demonstrando seu amor por ela e querendo ser correspondido. Mas só o sequestro em si será o primeiro de uma série de obstáculos à reciprocidade desejada por Freddy.

A Pele Que Habito (2011)

Desde que a sua mulher foi vítima de um acidente de automóvel, o doutor Robert Ledgard, eminente cirurgião estético, dedica-se à criação de uma nova pele graças à qual poderia salvá-la. Doze anos após o drama, Robert consegue cultivar uma pele que é uma verdadeira couraça contra todas as agressões. Para além de muitos anos de investigação e de experimentação, Robert precisa de um cobaia, de um cumplice e de uma ausência total de escrúpulos. Os escrúpulos nunca o afogaram. Marília, a mulher que se ocupou de Robert desde o dia em que nasceu, é a cumplice a mais fiel do mundo. Quanto à cobaia…