Crítica | A Forma da Água: muito mais do que um simples romance

Escrever uma história de amor não é uma tarefa fácil, são inúmeros os clichês imortalizados pela literatura e, mais recentemente, pelo cinema. Mas a verdade é que essa é uma tarefa árdua pelo simples motivo de que o amor é um clichê, o maior e mais profundo clichê da humanidade. Quando pensamos em uma história de amor ao fim da segunda década do século XXI, principalmente o amor romântico, isso pode se tornar uma tentativa fútil de realizar algo que várias vezes já foi realizado. La La Land, indicado em catorze categorias ao Oscar 2017, apesar de sua qualidade técnica inegável, sofreu com esses disparos, porém, a principal questão é conseguir enxergar as nuances de um romance, as entrelinhas, tudo aquilo o que ele envolve. Essas foram questões que tanto Damien Chazele em La La Land, como Guillermo del Toro, grande favorito ao Oscar por A Forma da Água, foram capazes de enxergar e colocar nas telas com a sutileza necessária para que o romance não se resuma à uma obra dramática shakespeariana que, nos dias de hoje, não seria nada original.

A Forma da Água é sim um romance, mais do que isso, a produção é um conto de fadas ambientado durante a guerra fria, onde russos e estadunidenses disputam o domínio econômico e político do planeta. Para ganhar a disputa, estadunidenses capturam uma criatura aquática da América do Sul, tida pela população local como um deus. A criatura presa em uma base secreta é encontrada por uma zeladora muda, e é então que o amor começa. Todavia, como dito antes, é preciso enxergar todos os detalhes que envolvem algo que pode parecer, à primeira vista, um simples romance. Guillermo del Toro é um especialista em monstros, mas suas produções possuem, mesmo que da maneira mais sutil possível, um tom político, logicamente toda obra artística é passível de interpretações e com a A Forma da Água isso não é diferente.

Elisa Esposito, brilhantemente vivida por Sally Hawkins, é muda em uma época onde a palavra “acessibilidade” como conhecemos hoje ainda não existia. O cotidiano dela é primorosamente representado em uma rotina simples, demonstrando a sua pacata realidade. Elisa parece abraçar a sua rotina, mas a verdade é que em seu íntimo o silêncio grita de maneira desesperadora. Elisa em primeira análise, é uma mulher muda, incapaz de falar, em uma segunda análise, Elisa representa o silenciamento da mulher na sociedade, em uma terceira e ampla análise, ela funciona como minorias sem voz dentro de um sistema. O Homem-Anfíbio (Doug Jones) é retirado de seu habitat e, incapaz de se comunicar, ele está presente em todas as análises como um personagem político, representa a exploração da América Latina, de suas crenças, de sua natureza e de seu povo. O amor desses personagens explicita o que é visto durante todo o filme: a luta para sobreviver e permanecerem juntos.

DQHTk9fXUAAnQFd
Imagem divulgação – A Forma da Água

Uma das maiores belezas do longa está exatamente na falta de comunicação. O amor surge do impossível, do surreal, da necessidade de se sentir compreendido, mesmo que nada seja dito. Del Toro conquista o público ao tornar trivial uma relação que acontece em meio a um dos maiores conflitos de espionagem da história. A diferença entre espécies também é deixada de lado e a sexualidade é representada sem tabus, porém com uma beleza e sensibilidade excepcionais. Neste aspecto o filme também é político, a forma não é – ou não deveria ser – mais importante do que o amor.

Alexander Desplat está mais uma vez impecável em sua trilha sonora que conversa diretamente com a fotografia e design de produção que, na simplicidade dos ambientes criam cenas deslumbrantes. Todas as características técnicas de A Forma da Água caminham para criar uma relação entre o público e os personagens que surgem em cenários aconchegantes ou opressivos.

Octavia Spencer e Richard Jenkins despontam como grandes coadjuvantes, daqueles que roubam a cena mesmo que o espaço não seja cedido. Zelda, vivida por Octavia, é por si só uma luz que ilumina o longa, ela funciona como o revés do personagem “ouvido”. Já que Elisa é muda, Zelda aparece em monólogos curtos, mas altamente necessários à narrativa, ela protege e dá voz à Elisa, é a amiga que a ajudava a preencher o vazio do próprio viver. O mesmo ocorre com Giles (Richard Jenkins), mas neste caso, o homem se descobre e desconstrói ideias conforme o enredo se desenvolve.

aformadagua-bf47a63decbe527c191f6fa88eb3d278-1200x600
Imagem divulgação – A Forma da Água

Michael Shannon dá vida ao vilão que representa a vida e o sonho americano dos anos sessenta que reverbera até os dias de hoje. Com uma bela família comercial de margarina e um carro caro na garagem, ele é um homem bem sucedido para o mundo, enquanto se frustra dia após dia em um trabalho que o obriga a ser ruim com os outros e com ele mesmo. É o homem sem escrúpulos justificado pela pressão da sociedade e do imaginário forjado no capital .

O conto de fadas de Del Toro está repleto de referências não somente ao mundo do cinema, mas ao mundo real e em como o conhecemos hoje. A mulher, as minorias, o preconceito, classes sociais, formas de trabalho, exploração e uma completa falta de humanidade em seres humanos, tudo isso envolve o amor. Apesar de sua liquidez pós-moderna, o amor segue fluindo por todos os espaços e histórias, e flui perfeitamente pela obra do diretor mexicano.

A Forma da Água é, portanto, uma história de amor repleta de clichês e montado sobre um argumento previsível, o qual é possível dizer ao início do filme, qual será o final. Contudo, ainda assim, isso não é o suficiente para tirar o brilho de uma produção que evoca tantos outros temas. Não foi a história de um romance que levou Del Toro e toda a equipe técnica às treze indicações no Oscar, mas sim a forma e os caminhos escolhidos para contá-la. Assim como O Labirinto do Fauno, A Forma da Água já está consolidado como um clássico contemporâneo, agora resta saber se ela será capaz de superar a maior obra do diretor até então, e receber a maior honraria do cinema.

FICHA TÉCNICA:

  • A Forma da Água (The Shape of Water)
  • Direção: Guillermo del Toro
  • Roteiro: Guillermo del Toro, Vanessa Taylor
  • Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg, Doug Jones, David Hewlett, Nick Searcy

2 comentários em “Crítica | A Forma da Água: muito mais do que um simples romance

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.