Crítica | Aniquilação: a autodestruição humana

‘‘quase ninguém se suicida, mas todos se autodestroem.”  Aniquilação, 2018

O mundo da ficção científica possui historicamente a função de questionar, criar e demonstrar possibilidades de um universo que pouco ainda conhecemos e sobre o pouco que conhecemos sobre nós mesmos. É o gênero que se debruça sobre as questões que movem cientistas por séculos, inclusive, a ficção científica abre portas para a imaginação do mundo tecnológico, como ocorreu com 2001: Uma Odisseia no Espaço. Com a ficção científica já visitamos outros mundos, outras dimensões, o passado e o futuro, temos a nossa percepção transformada.

Mas a ficção científica sofreu e sofre com o suposto progresso humano, no qual se quer tudo, se quer para já e sem dificuldades. A pós-modernidade traz a tecnologia do aqui e do agora e a ficção científica precisa se transformar em algo facilmente deglutível. Surgem grandes robôs, viagens no tempo sem qualquer parâmetro e guerras espaciais aleatórias, a reflexão perde espaço para os poderosos efeitos visuais vazios de significado. Portanto, quando encontramos títulos como A Chegada (Denis Villeneuve) e Ex-Machina (Alex Garland) e Coherence (James Ward Byrkit), sentimos um certo alivio por perceber que o gênero não está morto, mas resiste e muito bem, o mesmo ocorre com Aniquilação, também do diretor Alex Garland.

Aniquilação não é um filme de fácil digestão, ao seu fim, a sensação que fica é a de vazio, um vazio que carece de reflexões sobre o que acabamos de experienciar para que seja preenchido. Se em Ex-Machina o diretor trabalhou questões da inteligência artificial, em Aniquilação uma força misteriosa invade a Terra. Natalie Portman dá vida à personagem principal Lena, professora universitária que espera há mais de um ano pelo retorno de seu marido que está em missão com o exército, após eventos estranhos, Lena ingressará em uma equipe que irá desbravar a Área X, local afetado por uma estranha força chamada de “brilho”, onde o seu marido desapareceu. Então, junto com uma equipe de mais quatro mulheres, ela embarca em uma jornada que vai muito além daquilo o que ela precisa descobrir.

A partir daí o longa caminhará por uma terra modificada, criaturas estranhas, acontecimentos aterrorizantes e, principalmente, sobre a mente humana. Aniquilação utiliza um cenário surreal para realizar um complexo ensaio sobre a mente humana e a capacidade que possuímos de nos autodestruir a todo momento. Logo em sua primeira cena, o filme demonstra o seu objetivo ao analisar as células do corpo humano, essas se destroem para que outras possam ser criadas. A nossa essência corporal é destrutiva, mais ainda é a nossa mente.

Imagem divulgação – Screenshot – Aniquilação

Com cinco personagens femininas de personalidades muito bem construídas, fica evidente a autodestruição humana. Apesar das coadjuvantes serem construídas em cima de estereótipos, isso não soa como um problema, na verdade, funciona mais como uma maneira de materializar dramas pessoas aparentemente comuns, mas que são capazes de destruir uma pessoa por completo: a ansiedade, o medo, o pânico, a depressão. Já o caso de Lena, em específico, torna evidente o quanto somos destrutivos ainda que saibamos as consequências e que estejamos felizes. Garland, também roteirista, constrói a sua trama em três linhas temporais diferentes, construindo uma personagem altamente complexa condizente com o que ela viria a enfrentar. Natalie Portman é mais uma vez excepcional e cada uma dessas fagulhas que provocam rupturas no espírito humano ficam explicitas em suas expressões.

Os cenários são construídos em planos abertos evidenciando a beleza proveniente da destruição. Ao passo que temos uma atmosfera rica em beleza, transbordando vida, vemos em contraste o desespero das personagens em um ambiente desconhecido e, o mais importante, sem a possibilidade de ser controlado e manipulado pela mão humana, esse fator transforma aquilo que deveria ser tido como esplêndido em algo absolutamente aterrorizante.

Aniquilação não responde aos nossos questionamentos automáticos com afirmações conclusivas. De fato, o “não sei” é bem persistente e provoca um moinho de incertezas dentro e fora da tela. A palavra “aniquilação” aqui, representa bem o que praticamos diariamente durante toda a nossa existência. Nos destruímos pouco a pouco em busca de respostas que cada vez mais são inconclusivas e a cada passo dado rumo à essa descoberta que nunca chega, nos modificamos e nos adaptamos aos novos ambientes, dúvidas e indivíduos. Aniquilação é um exemplar do que move a ciência e ficção científica: as incertezas.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: Annihilation
  • País: EUA e Reino Unido
  • Direção: Alex Garland
  • Roteiro: Alex Garland
  • Elenco: Natalie Portman, Oscar Isaac, Jennifer Jason Leigh, Gina Rodriguez, Tessa Thompson, Tuva Novotny

 

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