Crítica | Big Fish & Begonia: uma belíssima animação chinesa

Big Fish & Begonia, que estreou recentemente na Netlix, é um verdadeiro marco para o cinema e a animação chinesa, isso porque, como se sabe, a China gasta dinheiro e esforços, mas raramente consegue produzir obras ao nível das animações japonesas, como as do Studio Ghibli, por exemplo e a comparação é inevitável. Portanto, a animação é uma belíssima surpresa e a promessa de uma China tão inventiva e confiante quanto o Japão, quando o quesito é animação.

A narrativa acompanha a história de Chun, uma jovem pertencente a um grupo de seres sobrenaturais que controlam as marés das almas. Quando ela faz dezesseis anos, lhe é permitido se transformar em um golfinho e explorar o mundo humano. No entanto, ela logo descobre os perigos da Terra e graças a um jovem humano ela não perde a sua vida, porém isso acaba lhe custando muito mais do que ela poderia imaginar.

O longa constrói as suas forças nas próprias bases culturais chinesas. A narrativa clássica de um país milenar que não relega a origem humana ao simples existir de deuses, criando a atmosfera necessária para uma imensidão reflexiva sobre a vida e a morte, sem a presença do jogo binário, mas demonstrando que entre esses dois conceitos existem uma infinidade de fatores que os constroem e também os destroem.

Dentro dessa premissa, é possível destacar principalmente as relações de causa e efeito sempre muito presentes nas filosofias orientais e, por consequência, em suas produções. Os personagens e suas trajetórias são marcados pelas suas escolhas que aqui representam claramente uma renúncia. Uma espécie de carma que se paga imediatamente.

Imagem divulgação – Big Fish & Begonia

A narrativa é construída sobre cores fortes, principalmente o laranja e o vermelho, tons predominantes na cultura chinesa e que, em geral, representam características virtuosas dos seres humanos. O longa é de uma beleza visual impressionante, um mundo imaginário que cabe perfeitamente em nossos ideais de um paraíso fantástico. Esses fatores somados a uma construção de personagens completos, que evoluem no decorrer da trama, é algo que não nos permite qualquer cansaço durante a exibição.

Questões relativas ao individual e o coletivo, o amor universal e o amor passional, também estão no cerne da história. Até que ponto a felicidade do coletivo é capaz de gerar indivíduos satisfeitos e até quando a liberdade individual permite a coletividade? Enquanto seres humanos construídos de sentimentos, somos capazes de lidar com essas questões para além de nossas próprias escolhas? A cultura chinesa reflete sobre esses questionamentos e explora esses fatores há eras, mas hoje, no século XXI, vemos que a resposta ainda não foi estabelecida. Isso diz muito sobre nossas limitações.

Todavia, o que mais chama a atenção em Big Fish & Begonia é a capacidade do roteiro de construir uma relação emocionante, onde praticamente não existem diálogos. Talvez isso se deva ao fato de que exista um imperativo trágico em obras orientais que nos leve a um ápice emotivo antes mesmo dele acontecer, mas ainda assim, cabe frisar que os personagens, falantes ou não, possuem expressões, sentimentos e um altruísmo que foge das convenções do nosso mundo normal, nos levando diretamente aos seres humanos ideais que nós gostaríamos de ser. Nesse ponto o preciosismo da animação é imenso.

O longa sofre sim com algumas falhas no roteiro, mas que acabam passando despercebidas quando nos apegamos ao conjunto da obra e a sua capacidade de gerar uma enxurrada de sentimentos, bons e ruins, além de colocar sobre a mesa uma série de lições filosóficas sobre a vida, o pós-vida e o amor. Pode parecer clichê, mas é a essência da vida humana. Ah, aqui vale o aviso, pode ser que durante o filme, lágrimas abandonem os seus olhos e uma completa sensação de vazio existencial preencha o seu peito, o que por si só, já diz muito sobre a qualidade de Big Fish & Begonia.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: Big Fish & Begonia, 2018
  • Direção: Chun Zhang, Xuan Liang
  • Roteiro: Xuan Liang