Crítica | Com Amor, Van Gogh: obras do pintor ganham ainda mais movimento

Vincent Willen Van Gogh é considerado um dos maiores nomes da história da arte ocidental. Em poucos anos o pintor completou cerca de 860 pinturas à óleo empregando um estilo inovador, movido por pinceladas agressivas e impulsivas, utilizando quase sempre cores vibrantes. Considerado um dos fundadores, senão o pai da arte moderna, Van Gogh morreu jovem e com a tristeza de ter vendido apenas um quadro em toda a sua vida. Sobre esse cenário, se constrói a narrativa de Com Amor, Van Gogh uma obra que se preocupa em compreender o gênio através do seu próprio estilo artístico.

O filme da polonesa Dorota Kobiela e do britânico Hugh Welchman é a primeira animação realizada a partir de pinturas em tela. São 95 minutos de filme realizados a partir 65.000 quadros, pintados por uma equipe com mais de 100 artistas. Por si só, sem levar em conta todos os demais quesitos que compõem um longa-metragem, o feito merece o reconhecimento. A obra é de uma magnitude de cores que faz jus ao brilhantismo do pintor holandês, a beleza frame a frame é indescritível.

Mas a real beleza da produção está em sua construção. A história começa um ano após a morte de Van Gogh, quando Armand Roulin sai, a pedido de seu pai, em busca de Theo Van Gogh, para entregar a última carta de seu irmão. Durante essa viagem, Armand embarca em uma verdadeira jornada de descobertas sobre o pintor e o espectador é presenteado com os mais diversos cenários que foram parar nas suas telas.  Desde “O Café à Noite na Place Lamartine”, passando pelo “Quarto em Arles”, a “Igreja de Auvers”, o “Campo de Trigo com Corvos”, até o momento mais brilhante – literalmente – com “A Noite Estrelada”. Enquanto Armand passeia por essas paisagens, ele encontra diversos personagens que posaram para Van Gogh.

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Imagem divulgação – Com Amor, Van Gogh

Mais do que um embasamento real e uma tentativa de resolução sobre o enigma que foi o pintor tanto em vida, quanto durante o momento de sua morte, o filme é praticamente escrito pelo próprio Vincent. Nesse ponto, Com Amor, Van Gogh se torna a mais bela homenagem que poderia existir.

O filme avança em ritmo lento enquanto a dor, a sensibilidade, o vazio, a tristeza e a melancolia do pintor vão sendo descritas pelos personagens. Não há em qualquer momento a pretensão de justificar as suas loucuras ou os seus feitos, isso fica claro diante da imprecisão com que os fatos são apresentados. O principal objetivo do filme é demonstrar a maneira como Vincent Van Gogh enxergava o mundo.

Ao fim, o que fica é o vazio. O mesmo vazio que aparece após o êxtase de ver uma obra do pintor, talvez o mesmo vazio que ele sentisse ao terminar uma pintura, talvez tenha sido esse vazio que o moveu a realizar tantas pinturas em pouquíssimo tempo. Com Amor, Van Gogh, entre presente e passado, fatos e ficção, leva ao cinema não apenas uma biografia do pintor, mas a sua alma através da sua própria arte, deixando de lado o seu protagonismo em cena, para mais uma vez afirmar a figura enigmática que ele foi.

FICHA TÉCNICA: 

  • Loving Vincent – Polônia/Reino Unido, 2017
  • Direção: Dorota Kobiela, Hugh Welchman
  • Roteiro: Dorota Kobiela, Hugh Welchman, Jacek Dehnel
  • Elenco: Douglas Booth, Jerome Flynn, Saoirse Ronan, Helen McCrory, Chris O’ Dowd, John Sessions, Eleanor Tomlinson, Aidan Turner
  • Duração: 95 minutos

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