Crítica | Final Space: um retrato sobre construção de relacionamentos, confiança e perdão

O mundo da animação para adultos cresce e nós estamos sendo presenteados com obras que proporcionam poderosas reflexões sobre a realidade, através de mundos alternativos, criativos e que nos afastam um pouco da loucura que é estar no planeta Terra, ao mesmo tempo que abre espaço para grandes discussões sobre o sistema vigente.

Final Space é uma comédia vendida de maneira despretensiosa, mas que traz em sua trama um poderoso sci-fy para ninguém colocar defeito.

A animação nos apresenta Gary Goodspeed, um prisioneiro que cumpre pena no espaço, consertando satélites, a bordo de uma nave comandada por uma inteligência artificial, HUE, e com a companhia de um robô projetado para ser irritante KVN (leia-se Kevin). Em uma dessas jornadas, Gary encontra Mooncake, uma explosão de fofura alienígena e decide adotá-lo. A partir deste ponto, a pena que Gary deve cumprir será completamente transformada em uma sucessão de aventuras intergalácticas incríveis e bizarras.

Com duas temporadas e um protagonista no maior estilo idiota, Final Space funciona como uma jornada de humanização de Gary. Nos primeiros episódios você irá detestar o personagem, mas continuará porque, sem dúvidas, será seduzido pela trama mirabolante e se apaixonará por Mooncake (isso é um fato). Porém, não demora muito até que Mooncake e os demais personagens façam emergir de Gary um novo Gary. Um Gary que literalmente se importa em salvar o universo.

Essa mudança na personalidade do personagem sem que ele perca a sua essência – isso é lindo demais – é bastante visível nos monólogos contidos nos episódios da primeira temporada. Gary encontra-se no limite da sua existência e da existência do todo, ou melhor, de tudo, e a imensidão do vazio contrasta com tudo aquilo o que vive nele. E a iminência do fim é sempre um estopim de mudanças.

Gary e os demais personagens, que são os mais variados possíveis, vivem grandes momentos e grandes mudanças. A primeira temporada é permeada de reflexões filosóficas sobre a sobrevivência e relevância da espécie humana, nossa capacidade e inclinação para a crueldade e os famosos dilemas morais que mexem com as nossas emoções.

Já na segunda temporada, a série coloca os pés no chão e lida com relações, traumas e suas consequências. Uma temporada em que a responsabilidade afetiva é uma questão central, em meio a um universo de aventuras por universos paralelos, viagens no tempo e criaturas míticas. Final Space lida com tudo isso com o alívio cômico que é característico das séries do gênero, mas não deixa de introduzir o drama necessário para causar o impacto necessário.

Final Space é uma série sobre crescimento e amadurecimento. Uma produção que demonstra e nos convida a pensar o amadurecimento através da perspectiva de que você não precisa abandonar aquilo que te faz feliz para amadurecer. Amadurecimento não significa se tornar um ser humano engessado e sem brilho no olhar. Crescimento significa aprender a lidar com os sentimentos – seus e de todos – de forma sincera e gentil.

Gary e sua tripulação, que cresce bastante de uma temporada para a outra, aprendem em sua jornada o que significa um coletivo e que a empatia deve ser a palavra ordem. Ser um amigo não significa necessariamente resolver os problemas do outro, ser amigo pressupõe compreensão e a capacidade de evoluir juntos. Você não deseja que a pessoa seja sempre a mesma, pelo contrário, você torce para que ela se transforme sempre em sua melhor versão, assim como você.

A ficção científica cria outros mundos e universos para nos fazer questionar nossa própria realidade. O problema é que quase sempre relacionamos esses questionamentos às questões do que é literalmente real ou não, ou grandes tabus, como a morte.

Final Space, por outro lado, te proporciona risadas em uma narrativa repleta de referências da cultura pop e com uma dublagem fantástica, tanto em inglês, quanto em português, e quer que você questione o seu próprio eu, a sua existência enquanto um ser carregado de emoções e que as reverbera em seu universo social. Final Space é um retrato sobre construção de relacionamentos, confiança e perdão, diante de uma ideia de que para desbravar outros universos, é preciso desbravar a si mesmo.