Crítica | Gata Velha Ainda Mia: Regina Duarte como você nunca viu

Regina Duarte é uma excelente atriz e isso é um fato inquestionável, mas a Rede Globo e suas novelas praticamente a canonizaram enquanto um ícone de bondade e sabedoria. Quando pensamos em um personagem de Regina Duarte, automaticamente vem à nossa mente a imagem da Viúva Porcina e de uma Regina conhecida como a namoradinha do Brasil, mulher forte, batalhadora e estereotipada pelo resto de sua vida. Mas a carreira da atriz possui alguns suspiros que, infelizmente, não chegam ao grande público como as novelas. Gata Velha Ainda Mia é um deles.

O filme traz Regina Duarte no papel de Glória Polk, uma escritora que está voltando à ativa e sobre o seu retorno dará uma entrevista à jornalista Carol, interpretada por Bárbara Paz. Essa é a premissa do filme, acontecer em no máximo dois ambientes, com diálogos longos entre duas mulheres que representam um grande choque de gerações.

A direção faz um bom trabalho de condução da trama e já ao início percebemos que há algo de muito errado com ambas as personagens, o que gera um excelente clima de suspense que se mantém durante toda a narrativa. Com uma fotografia de tons quentes, a tensão se alastra por toda a película e adentra o ambiente habitado pelo público. As interpretações de Bárbara Paz e Regina Duarte não permitem um minuto de suspiro e, aqui fica o aviso, se longos diálogos ou monólogos te incomodam, esse não será um filme agradável para você.

Imagem divulgação – Gata Velha Ainda Mia

O roteiro traz referências evidentes à Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder) e O Que Terá Acontecido à Baby Jane? (Robert Aldrich). Ao lado de Carol, Glória se sente velha, porque a sociedade a faz sentir-se velha, inútil e acabada. Mesmo uma feminista fervorosa, acaba sendo traçada pelos tentáculos inquisidores do patriarcado, quando os seus livros não são mais lidos ou vistos da mesma forma, porque o seu corpo não é mais o mesmo.

Mas apesar das excelentes atuações, a impressão que fica é a de que Rafael Primot, mais conhecido por suas direções no teatro, não confia em planos abertos ou procura de todo modo fugir do teatro, utilizando em excesso os planos detalhes. Com isso, em diversos momentos ambas as atrizes soam exageradamente caricatas, o que dá um certo ar cômico ao longa que não deveria estar ali.

Gata Velha Ainda Mia é uma excelente surpresa. Um filme que, dentro de suas limitações, consegue absorver o que tem de melhor e entrega um satisfatório suspense psicológico. Bárbara Paz faz um excelente trabalho e se mantém grande diante de uma atuação maior ainda de Regina Duarte. E quando os créditos finais sobem, o que fica é uma sensação de completa incerteza dentro da loucura das personagens, algo que somente um bom exemplar do gênero pode realizar.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: Gata Velha Ainda Mia – 2013
  • Direção: Rafael Primot
  • Roteiro: Rafael Primot
  • Elenco: Regina Duarte, Bárbara Paz, Gilda Nomacce.