Crítica | Ilha dos Cachorros

Ilha dos Cachorros, segundo filme em stop motion de Wes Anderson, é uma fábula memorável e carrega muito mais do uma simples moral sobre valores humanos. Na verdade, a animação é uma belíssima metáfora sobre governos fascistas e chega em um ótimo momento para o público mundial que vive um complexo avanço conservador.

No filme, todos os cachorros de Megazaki são infectados por uma gripe canina que, aparentemente, irá atingir também a todos os humanos. A solução encontrada pelo governo – chefiado por um descendente de um grupo que odeia cachorros – é enviar todos os animais para uma ilha, onde eles não terão qualquer contato com humanos e definharão até a morte.

O longa é primoroso em todos os aspectos, mas em um ponto específico é inegavelmente brilhante. A estética de Ilha dos Cachorros, construída em stop motion é exuberante, conseguindo superar o último filme do diretor realizado com a mesma técnica, O Fantástico Sr. Raposo. Temos belíssimos planos abertos e planos detalhados que fazem jus à expressão. É realmente encantadora a forma como os cenários e os personagens são construídos, para melhorar, as dublagens de  Bryan Cranston (Chief), Edward Norton (Rex), Bill Murray (Boss), Frances McDormand (Intérprete Nelson), Scarlett Johansson (Nutmeg), Liev Schreiber (Spots) são outros importantes atrativos sonoros.

O roteiro, assinado pelo próprio Wes Anderson, faz um excelente uso de todos esses artifícios e cria uma fantástica história para todos os públicos. Em dois planos narrativos distintos e complementares, Anderson consegue nos envolver em uma aventura leve e cheia de carinho de um menino em busca de seu cão, enquanto o pano de fundo é uma poderosa crítica direcionada aos sistemas totalitários fascistas, em uma clara referência ao nazismo. Mas as críticas não param por aí, o longa trabalha muito bem as personalidades isoladas e quanto cada uma delas foi afetada por uma sociedade desigual, em uma complexa revolução de identidades presente na era em que vivemos.

Imagem divulgação – Ilha dos Cachorros

O comportamento humano representado nos cachorros é apresentado com grande sutileza com o fim de representar a linha tênue entre o suposto nível de civilidade que conseguimos alcançar e a completa ausência dela. Da personagem criada e moldada para ser bela e encantar com poses, até aquele que ataca sem entender o porquê de estar atacando, temos perfis complexos e que demonstram em todos momentos que são muito mais do que aquilo o que a sociedade diz que eles podem e devem ser.

Um outro ponto chave que denota a diferenciação entre os grupos está na linguagem. Algo que foi muito discutido enquanto Ilha dos Cachorros foi exibido pelas primeiras vezes, é o fato de que no filme, os cachorros falam inglês e o japonês, língua do país onde o filme está ambientado, não é traduzida ao público. Contudo, quando somente os cachorros falam uma língua diferente, está montada uma grandiosa metáfora de segregação na qual uma parte da população simplesmente não é ouvida por não conseguir se fazer entender e, por isso, é como se não possuíssem voz, sendo isolados e, consequentemente, excluídos sem qualquer direito.

Ilha dos Cachorros é, em resumo, uma narrativa descomplicada que serve para tratar de temas complexos, portanto, atua em um nível de comunicação que poucas obras conseguem alcançar. O filme de Wes Anderson trabalha a exclusão e a segregação a partir de uma lógica e um olhar que consegue incluir e ao mesmo tempo proporcionar um sentimento de união. Uma produção que além de portar uma estética belíssima, é ainda capaz de criar uma atmosfera de otimismo sem a necessidade de transformar humanos – ou cachorros – em um exemplo de bondade, pelo contrário, é por meio da imperfeição que Ilha dos Cachorros demonstra as nossas capacidades de construir afeto em meio ao caos e de acreditar em um fim para os dias de cão.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: Isle of Dogs — 2018
  • Direção: Wes Anderson
  • Roteiro: Wes Anderson, Roman Coppola, Jason Schwartzman, Kunichi Nomura
  • Elenco: Bryan Cranston, Koyu Rankin, Edward Norton, Bob Balaban, Bill Murray, Jeff Goldblum, Kunichi Nomura, Akira Takayama, Greta Gerwig, Frances McDormand, Akira Ito, Scarlett Johansson, Harvey Keitel, F. Murray Abraham, Yoko Ono, Tilda Swinton, Ken Watanabe, Mari Natsuki, Fisher Stevens, Nijirô Murakami, Liev Schreiber, Courtney B. Vance, Satoshi Yamazaki, Gen Ueda, Anjelica Huston, Yôjirô Noda

 

 

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