Crítica | Jogo Perigoso: Netflix acerta em poderosa adaptação

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Imagem divulgação  – Jogo Perigoso

Baseado no romance homônimo de Stephen King, lançado em 1992, Jogo Perigoso é um grande acerto e adaptação da Netflix.

Em um primeiro momento, o enredo pode parecer muito simples: um casal viaja para uma casa afastada da cidade com o objetivo de tentar melhorar o casamento, para isso, a esposa tentará realizar uma fantasia bizarra do marido. O problema é que, graças ao uso de medicamentos masculinos sexuais milagrosos, ele sofre um infarto e a esposa fica algemada na cama, o observando ser comido lentamente por um cachorro desconhecido atraído por ela mesma. Essa seria, inclusive, uma excelente sinopse, mas ela não diria absolutamente nada do que realmente acontece ou importa nesse filme.

Quando, logo no início, parece que nada mais irá acontecer e temos a impressão de que o roteiro cairá nas mesmices dos filmes de suspense médios, a reviravolta acontece e já não temos mais um simples thriller, o que passamos a ver é um belíssimo embate psicológico entre a personagem principal e seus sentimentos e dores mais profundas.

Em um quarto com apenas uma cama, criados-mudos, uma cômoda e uma terrivelmente importante prateleira, se passa praticamente todo o longa. Cores apáticas que não chamam qualquer atenção para o cenário, geram uma sensação de quarto branco da loucura e, ao mesmo tempo, as cores de uma relação destruída e de uma mulher sem vida. Tudo perfeitamente construído para implantar as sensações de desespero e esperanças sutis de uma mulher algemada em uma cama, assistindo as manifestações de sua cabeça perturbada.

Imagem divulgação – Jogo Perigoso

Mike Flanagan executa um ótimo trabalho por trás das câmeras, nos esconde todos os detalhes e características dos personagens que vão desenvolvendo-se e apresentando-se conforme Jessie (Clara Gurgino) remonta a sua própria personalidade e, por consequência, a de seu marido Gerald (Bruce Greenwood). Dessa forma, percebemos junto com a protagonista que a sua vida foi construída em cima de decisões que nunca realmente foram tomadas por ela. Jessie é a representação de uma mulher que se despe da culpa do existir que sempre lhe impuseram.

As algemas que prendem Jessie à cama são uma metáfora muito bem elaborada para demonstrar o quanto ela está presa ao marido e aos seus fantasmas do passado. Mesmo que morto, Gerald mantém a sua esposa bem atada em suas amarras. Para se libertar, ela precisa trazer o que há de mais forte e corajoso nela, surgem, então, de uma maneira muito bem elaborada, o que equivale aos “anjinhos e diabinhos” dos desenhos animados.

Ao passo que o filme caminha para o final, a trama muda completamente o seu ritmo, dando um baque no espectador. Os minutos finais foram reservados para respostas direitas, não ficariam pontas soltas, não surgiriam questionamentos pós-créditos, a resolução seria completa. Para alguns pode soar como excesso de explicações, como comumente ocorre em títulos do gênero, mas quando olhamos para o que a obra nos trouxe antes, podemos aceitar que os meios justificam os fins, contudo, não podemos negar que certas respostas simplesmente poderiam ter sido deixadas para trás, deixadas na noite, esquecidas na escuridão, sem tantos porquês.

Jogo Poderoso é uma boa adaptação de Stephen King, nesse ano que tem sido repleto de realizações de suas obras no audiovisual, algumas boas, outras não tanto, portanto, o destaque é merecido. Com um baixo orçamento, a produção cumpre muito mais do que promete e entra para o hall das produções bem sucedidas da Netflix, o que nos últimos tempos é um feito raro, além de ser um dos melhores suspenses psicológicos do ano.

FICHA TÉCNICA

  • Direção: Mike Flanagan
  • Roteiro: Jeff Howard, Mike Flanagan
  • Produção: Trevor Macy
  • Direção de Fotografia: Michael Filmognari
  • Música: The Newton Brothers

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