Crítica | La Casa Muda: muito mais do que um plano sequência

La Casa Muda foi realizado com um orçamento baixo e gravado com uma Canon EOS 5D Mark II, que, para os padrões dos filmes de terror de Hollywood, é extremamente simples. Mas não se enganem, todos esses fatores culminam apenas por transformar a produção uruguaia em um filme com pretensões grandiosas. O filme de Gustavo Hernández se propõe a um plano sequência de 78 minutos, onde pai e filha encontram-se em uma casa no campo que, aos poucos, se mostra um lugar nada calmo ou hospitaleiro.

A produção, exibida em Cannes tem grandes méritos e não é fácil de digerir. Isso se dá não somente pelo extenso plano sequência que, na verdade, sofre uma série de cortes bem elaborados quando a luz se apaga, além do fato de que 78 minutos não resultam em um filme que começa ao entardecer e termina no amanhecer, mas para além disso, o roteiro e a direção nos colocam em duas posições distintas para acompanhar a história: a primeira nos mostra a visão da protagonista, enxergamos a todo momento, minuto a minuto, ininterruptamente o que ela enxerga; a segunda posição nos coloca como vigilantes da personagem, como se fôssemos uma espécie de narrador observador. Assim, distante de qualquer onisciência, caminhamos por duas vias distintas que geram o real terror do filme de Hernández.

Quando assistimos a um filme do gênero, somos apresentados aos personagens e ao contexto geral da narrativa, mesmo que não tenhamos ideia do desfecho, apreciamos as situações de cima, com um olhar completamente distanciado que nos permite elaborar possíveis alternativas para a trama. Inclusive, em produções que mais se assemelham ao uruguaio La Casa Muda, como Atividade Paranormal, A Bruxa de Blair ou Assim na Terra Como no Inferno, o que temos é a perspectiva da câmera, conhecemos a câmera e o seu objetivo, e esse é o fator crucial que distingue La Casa Muda dos demais, nós só estamos ali, sem explicações ou porquês, apenas seguimos o fluxo intenso imposto pela direção.

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Imagem divulgação – La Casa Muda

O jogo psicológico realizado no desenvolvimento da trama é impressionante.  Em dado momento não estamos entendendo mais nada e querendo mais é que tudo acabe, no minuto seguinte percebemos que em meio a um plano sequência deixamos passar flashbacks e flashforwards cruciais. E é nesse ponto que está a maior sacada da produção: a visão em primeira pessoa é tão poderosa, que não é possível se desvencilhar e manter o olhar distante necessário para se dar conta de todos os nuances de uma personagem completamente caótica.

La Casa Muda não irá se dar ao trabalho de te explicar todos os detalhes e amarrar todas as pontas soltas, essa função fica, claramente, para o espectador, não por preguiça ou comodismo, mas porque todas as pistas estão lá e, assim como o caso real no qual o filme baseia-se, não há uma solução ou uma única solução. Nem mesmo a casa, como o título sugere, é capaz de afirmar qualquer coisa.

Ao fim, quando sobem os créditos finais, o sentimento de inquietação é tremendo, o objetivo é alcançado com sucesso e permanecemos imersos na loucura que se instaurou. Agora, em sua totalidade, podemos nos afastar e observar toda a narrativa de longe, procurando por uma ordem e uma lógica que não existe em uma mente conturbada, como aquela que nos foi apresentada. Talvez o único ponto negativo seja o fato de que o roteiro não acredita em sua própria narrativa, forçando uma cena pós-crédito que termina por tentar nos fornecer um ponto de vista, quebrando toda a lógica estabelecida desde o primeiro minuto: não somos oniscientes nessa história.

No mais, pela construção coesa e ousadia da realização, La Casa Muda merece destaque. Com pouquíssimos diálogos e uma atuação e direção que mantém a tensão em um grau elevadíssimo do início ao fim, com o horror que não avança sobre o limite do ridículo, muito pelo contrário, é uma ótima indicação para quem está cansado da mesmice didática estadunidense e precisa oxigenar a pasta do gênero.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: La Casa Muda
  • Diretor: Gustavo Hernandéz
  • Roteiro: Oscar Estévez
  • Elenco: Gustavo Alonso, Florencia Colocci, Abel Tripaldi, Maria Salazar
  • País: Uruguai

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