Crítica | Maria Madalena: uma mulher pertence somente a ela mesma

Por um erro cometido há mais de um milênio, Maria Madalena carrega em seu nome uma falácia catastrófica, utilizada não apenas para estigmatizar a sua própria imagem, como também a imagem de qualquer mulher que contrarie minimamente os códigos sociais vigentes. A primeira pessoa a ver o Cristo ressuscitado, julgada erroneamente como prostituta pelo Papa Gregório em 591 D.C, é uma mulher que permanece enigmática até os dias atuais, mas não por uma ausência de textos, mas sim por uma completa não aceitação do fato de que uma mulher possa ter sido importante na caminhada do homem mais famoso e glorificado da história.

Maria Madalena, filme de Garth Davis (Lion), foge das convenções bíblicas e apresenta uma versão do calvário de Cristo através dos olhos femininos mais controversos do cristianismo. Aqui, Maria Madalena, vivida por uma Rooney Mara consciente de sua responsabilidade, não é representada com base em clichês ou como a clássica não reconhecida esposa de Jesus, mas sim como sua apóstola e companheira de jornada, uma das responsáveis por passar a diante o reino de Deus e as suas promessas.

A saga de Jesus, vivido por Joaquim Phoenix, funciona como o pano de fundo para a narrativa de auto-evolução e reconhecimento próprio da personagem principal. Esse fato poderia incomodar os mais religiosos, diante de uma posição de diminuição da importância do Messias, mas a verdade é que Davis faz um primoroso trabalho em demonstrar que o caminho de Madalena é, na verdade, o caminho do amor pregado pelo rabino – forma como os apóstolos se dirigem a Jesus. Sendo assim, a décima terceira apóstola não encontra em Jesus um salvador, o que ela encontra é alguém que dá sentido e entende tudo aquilo o que ela sempre julgou ser a verdade e o correto. Dessa forma, o diretor não precisa elevar a imagem de um em detrimento do outro, alcançando perfeitamente o seu objetivo de igualar a imagem de uma mulher a de um homem.

Mas o foco não se mantém apenas em Madalena, o diretor também faz uso de algo que poderia ser descrito como “polos negativo e positivo” dentro da narrativa bíblica. A personagem principal caminha entre os secundários funcionando como gatilho para o diretor produzir os seus questionamentos sobre figuras tão emblemáticas. Pedro e Judas são dois exemplos disso. Pedro, conhecido como a pedra fundamental da igreja, é representado como um homem bem distante de ser essa rocha exemplar capaz de se manter em pé a qualquer custo. Judas, por outro lado, ganha uma representação mais humana, distante de um simples traidor em busca de fortuna.

Imagem divulgação – Maria Madalena

Maria Madalena é uma das produções bíblicas mais sensíveis de todos os tempos. A sensibilidade vem através do roteiro assinado por Helen Edmundson e Philippa Goslett, que ganha vida através de interpretações grandiosas. Rooney Mara carrega em seu olhar a força e a serenidade necessária para encarar o seu mundo enquanto uma mulher que subverte a ordem, Phoenix é uma das versões mais convincentes de Jesus, portando em todos os momentos o sofrimento de seu futuro próximo, a decepção de ser constantemente mal interpretado e, ao mesmo tempo, a confiança sobre a relevância de seu destino. Chiwetel Ejiofor é um Pedro que explode em busca de revolução, Tahar Rahim exibe um Judas que, por vezes, nos esquecemos que é aquele mesmo Judas que todos conhecemos.

Mesmo com isso, o longa é feito sob narrativa lenta e constante. A tensão não é um recurso utilizado em nenhum momento, mesmo nas partes mais dolorosas, a direção opta por uma tentativa de tocar o coração do público ao invés de proporcionar o embate, reduzindo o nível ainda maior que as atuações poderiam ter alcançado. É perceptível também a necessidade que Garth Davis possui de não se comprometer. Desde a escolha do elenco, formado por protagonistas brancos, até a condução da narrativa nitidamente feita para agradar a gregos e troianos, o diretor mantém o pé no freio do início ao fim, fugindo de discussões mais pontuais e se debruçando sobre um viés mais amplo e seguro do feminismo atual.

Em todo caso, Maria Madalena foi produzido com a intenção de ajudar a reconstruir o imaginário de uma das mulheres mais famosas da história, mas que infelizmente ficou marcada por um erro que, mesmo reconhecido pelo Papa Francisco em 2016, ainda corre solto como um grande mito. O longa cumpre bem o seu objetivo e dá o pontapé inicial em produções bíblicas que priorizem o papel, a interpretação e a visão feminina dessa construção milenar que ajudou a subjugar, diminuir e eliminar milhões de mulheres do planeta. Maria Madalena é um filme histórico simplesmente por existir e demonstrar que cada mulher é dona de si mesma e de seu próprio espírito.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: Mary Magdalene, 2018
  • Direção: Garth Davis
  • Roteiro: Helen Edmundson, Philippa Goslett
  • Elenco: Rooney Mara, Joaquim Phoenix, Tahar Rahim, Chiwetel Ejiofor, Tawfeek Barhom, Zohar Sthtrauss, Hadas Yaron, Shira Haas, Uri Gavriel