Crítica | Marjorie Prime: para que servem as nossas lembranças?

Memória. Essa talvez seja a característica mais complexa da raça humana. Ter memória, significa, reviver várias vezes uma mesma situação através de uma recriação mental de um evento. Nos lembramos de bons e maus momentos, e o que sentimos nestes momentos irá operar a cada vez que essa lembrança vier à tona. São os sentimentos que recriam e revivem as memórias e não o contrário. O que vivemos uma vez, jamais poderá ser vivido novamente, sobre isso se cria o enredo de Marjorie Prime.

O longa de Michael Almereyda, baseado na peça de Jordan Harrison, nos apresenta à Marjorie (Lois Smith), uma senhora com alzheimer e que precisa de cuidados de sua filha Tess (Geena Davis) e de seu genro Jon (Tim Robbins). Jon, tentando tornar a vida de Marjorie mais agradável, contrata um serviço de hologramas, que recria o marido de Marjorie, Walter (John Hamm) ainda jovem, suas memórias são construídas através de relatos contados pela família e pesquisas realizadas pelo programa, o que torna o holograma bastante real.

Marjorie Prime é um filme de sensibilidade ímpar. A dor da perda é inerente ao ser humano e o sentimento de não aceitação é praticamente uma reação involuntária. Desse ponto, surgem as ideias que, no plano real ainda são eticamente proibidas, mas que na ficção científica estão sempre se renovando. Viagens no tempo, clones, inteligências artificiais e hologramas, como no caso aqui representado, demonstram que não lidamos bem com o luto e nem com o que vem depois dele.

Mas em todos os casos, quando de alguma forma se tenta reverter uma morte, o resultado nunca é o esperado. Por melhor que a invenção possa ser, a sensação de que algo muito errado está acontecendo permanece, e não por um senso qualquer de ética ou até mesmo espiritualidade, alguma coisa dentro de nós simplesmente precisa reconhecer humanidade. Essa sensação permeia toda a narrativa do longa, em uma mistura de nostalgia com desespero.

Imagem divulgação – Marjorie Prime

Apesar do luto, a morte é tratada com bastante naturalidade no longa, em mais uma demonstração de que a morte em si não é importante, mas sim a ausência que surge com ela. As memórias em Marjorie Prime servem para preencher as lacunas dessa ausência, todavia, memórias só conseguem preencher lacunas que elas ainda podem tocar, do contrário, elas ficarão cada dia mais nubladas e, quando a memória de repente é capaz de materializar-se na sua frente, ela já não passa de uma impostora.

A produção é construída durante praticamente todo o tempo em ambientes internos, opacos, sem vida. Existe uma praia do lado de fora, mas pouco se vê dela, o que torna a narrativa ainda mais sufocante, em um claro questionamento do que é real neste universo e o do que não é. O roteiro de Almereyda prioriza longos diálogos, um fato que torna a narrativa lenta, mas exatamente do jeito que deveria ser diante de um elenco que consegue transmitir por meio de personagens, a clara ideia de que cada ser humano vive uma experiência única dentro de si e que essas experiências jamais podem ser comparadas.

Marjorie Prime pode ser descrito como a demonstração da efemeridade humana. Do quanto somos frágeis e não temos absolutamente controle nenhum sobre nossas mentes e, principalmente, daquilo o que as nossas mentes guardam. Uma obra que serve também para nos lembrar de que todos nós seremos apenas pó, grãos de memória flutuando por outras mentes sem controle. Memórias pequenas prontas para serem despertadas e que nunca serão lembradas, mas sempre, de alguma forma, sentidas.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: Marjorie Prime —  2017
  • Direção: Michael Almereyda
  • Roteiro: Michael Almereyda (adaptado da peça de Jordan Harrison)
  • Elenco: Jon Hamm, Geena Davis, Tim Robbins, Lois Smith, Hannah Gross, Stephanie Andujar, Azumi Tsutsui, Hana Colley