Crítica | Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississippi

Mississipi, período pós Segunda Guerra Mundial, esse é o cenário onde Mudbound – Lágrimas Sobre Mississipi está ambientado, em um lamaçal que demonstra muito mais do que a condição da região na época, mas funciona perfeitamente como metáfora para representar o quanto nós, seres humanos, chafurdamos em uma lama de contradições e incoerências.

Dee Rees, a mulher por trás da produção, que fez história ao ser a primeira mulher negra a ser indicada ao Oscar de melhor roteiro adaptado, comanda um longa que mantém o seu foco no racismo, mas que também desvela uma série de questões que envolvem a moral humana e a nossa capacidade de empatia.

Em Mudbound, temos a história de dois homens, um branco e um negro, que partem para a guerra e, ao fim, precisam retornar e enfrentar os problemas gerados pela ira bélica e também pela incompreensão daqueles que não conheceram os seus horrores. Os mesmos que julgam o racismo de Hitler e suas atrocidades, são também aqueles que impedem uma pessoa negra de entrar pela porta da frente de um estabelecimento. São, igualmente, aqueles que glorificam um soldado pelo número de pessoas que ele tenha matado, enquanto acham terrível o mesmo ato caso praticado por um alemão. Aqui, Dee Rees consegue demonstrar com sutileza a esquizofrenia humana que continua a acreditar que os fins justificam os meios.

Contudo, os fins nem sempre são os resultados que se espera quando os meios são executados. Um bom casamento em quesitos financeiros, por exemplo, não gera a felicidade por si só, enquanto a cumplicidade é capaz de tornar uma vida difícil e pesada em uma jornada por algo melhor. Nesses aspectos, o longa dedica muitos de seus minutos para dissertar sobre  o amor, um amor compreensível, complacente e dedicado, ao mesmo tempo que é um amor que luta, discorda e não se rende. A direção faz pouco uso da violência para tratar do racismo, preferindo trazer uma visão romântica que, por incrível que pareça, marca muito mais o espectador do que a violência e a matança.

Imagem divulgação – Mudbound

A fotografia de Rachel Morrison, primeira mulher indicada ao prêmio, torna o Mississippi ainda mais cruel. É possível trocar as cores por sentimentos e afirmar que a paleta é composta por tristeza, solidão, desespero e um filete de esperança. Dentro dessa atmosfera, o elenco mostra a sua força, com destaque para as personagens femininas interpretadas por Carey Mulligan e Mary J. Bigle. A última, conhecida por sua música, é irreconhecível no papel de uma mulher marcada por sua história e pela história de seu povo. A primeira, uma mulher conformada com o seu marido pelo absurdo motivo de que não seria capaz de conseguir nada melhor com a sua idade, já muito avançada para um casamento. O elenco masculino foi pensado para colocar na mesa as facetas mais comuns entre os homens: daquele tipo raro que tenta ser o melhor, até aquele que não esconde o monstro interior.

Mudbound teve suas justas indicações ao Oscar, mas infelizmente ainda não foi o momento onde a academia honrou a obra de uma cineasta negra com a indicação a melhor filme. Contudo, o longa merece o seu lugar no hall das melhores produções do gênero, tratando de um tema tão complexo quanto o racismo com poesia, mas uma poesia que incomoda a alma branca. Demonstrar a violência é um caminho, mas a violência do racismo é muito mais sutil e é isso que fica claro em cada minuto, cada personagem e cada monólogo exibido no longa. Talvez falte a Mudbound um final um pouco mais compatível com o todo da obra, mas no longa de Dee Rees são os meios que justificam os fins.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: Mudbound, 2017
  • Direção: Dee Rees
  • Roteiro: Dee Rees, Virgil Williams
  • Fotografia: Rachel Morrison
  • Elenco: Carey Mulligan, Jason Clarke, Jason Mitchell, Mary J. Blige, Rob Morgan, Jonathan Banks, Garrett Hedlund, Kelvin Harrison Jr, Claudio Laniado, Kennedy Derosin