Crítica | Nasce Uma Estrela: um romance em 12 notas

“música é, essencialmente, 12 notas entre qualquer oitava – 12 notas e a oitava repete. É a mesma história sendo contada, de novo e de novo. Tudo o que um artista pode oferecer ao mundo é como ele enxerga essas 12 notas”

Nasce Uma Estrela é o conto clássico deste Oscar. Adaptada pela quarta vez para o cinema, a narrativa é um verdadeiro conto de fadas que conforme passam os anos, avança dentro da perspectiva da contemporaneidade, mantendo o seu caráter, de alguma maneira, épico.

Ally (Lady Gaga) trabalha em restaurante e se apresenta esporadicamente em uma casa de shows de Drag Queens. Lá, enquanto canta, ela conhece Jackson (Bradley Cooper), um astro da música, que automaticamente se apaixona pela voz e beleza da moça. A partir daí, Nasce Uma Estrela trilha todos os clichês já contados sobre uma história de amor entre pessoas famosas, mas são clichês capazes de nos manter vidrados sobre a tela, em uma bela, complexa e triste história de amor.

A versão de Bradley Cooper, em um primeiro momento, é surpreendente. Quando o longa foi anunciado, confessamos que não havia muita expectativa, e não pelo motivo geral que moveu a massa, que dizia em bom som que Lady Gaga não estaria a altura do papel. Mas para nós, esse era exatamente o ponto que poderia salvar o filme, enquanto o que matinha o nosso o pé atrás, era o fato de nunca termos visto Bradley Cooper cantar e muito menos dirigir. Contudo, o ator não somente se revela um bom diretor, levando o seu primeiro filme a ser indicado ao Oscar, como também se mostra um excelente cantor. Fato esse que acabou em perfeita harmonia com a voz de Gaga, nos proporcionando uma estupenda trilha sonora.

O filme é basicamente formado por Ally e Jackson, que acompanhados da fotografia de Matthew Libatique, expõem a profundidade de seus personagens em uma explosão de tons que caminham do azul cintilante para o vermelho, enquanto o relacionamento constantemente caminha da felicidade ao fim. Gaga, que já venceu o Globo de Ouro por seu papel em American Horror Story, aqui realiza o melhor trabalho de sua carreira.

Por mais que alguns ainda carreguem a birra com o pop da cantora (que a gente adora), não há mais o que discutir, Lady Gaga é uma grande atriz e merece a sua indicação ao Oscar. Por outro lado, Bradley Cooper se esforça, entrega um bom papel, sua conexão com sua companheira de cena é inegável, mas o ator ainda falha em cenas em que o choro e a tristeza deveriam ser visíveis. É perceptível o esforço tanto da direção – dele mesmo -, quanto da edição para limitar a sua encenação nesses momentos e passar a bola para Gaga.

Ambientado no mercado da música, em alguns momentos é difícil não associar Ally à própria ascensão de Gaga no mundo pop. Comentários como “você deve pintar o seu cabelo” ou “estava pensando em platinado”, levam o nosso imaginário diretamente ao início da carreira da cantora, quando ela destruía os índices com Poker Face. Em determinado momento, parece que estamos vivendo uma realidade paralela onde Lady Gaga teve um relacionamento com um cantor de country rock.

Contudo, a verdade é que Nasce Uma Estrela concorre ao Oscar e vem sendo indicado em todas as demais premiações, por ser um verdadeiro espetáculo musical. O relacionamento é o foco, mas o recorte é ainda mais reduzido, o relacionamento na música é o foco. Os personagens se amam, mas claramente o amor explode no momento em que os dois estão juntos cantando. As faixas gravadas ao vivo em cena causam constantes arrepios. Você pode não ter gostado da história do filme, das atuações, da direção de Cooper, mas dificilmente você não gostou da forma como as músicas foram apresentadas. É grandioso.

Shallow, indicada ao Oscar como melhor canção original, apresentada aos poucos, é o necessário para que aquele casal nos cative até o fim. O acústico de Lady Gaga em um estacionamento ao apresentar a música, ecoa diretamente para um dueto que acompanhado por uma câmera precisa, demonstra cada momento e reação dos protagonistas. Shallow é o ticket de Cooper como diretor e um passo ainda maior na carreira de Gaga.

Sem a pretensão de inventar a roda e revolucionar o gênero musical, Nasce Uma Estrela escorrega em alguns momentos do roteiro e na atuação de Cooper, mas o conjunto geral é realmente surpreendente. Uma história de amor atemporal que sobrevive e se ressignifica diante do tempo. Afinal de contas, o amor, assim como as 12 notas musicais que se repetem, é um ciclo infinito e que sempre terá algo a dizer.