Crítica | O Destino de Uma Nação

Imagem divulgação – O Destino de Uma Nação

Entra ano, sai ano e as premiações mantém em suas listas de indicados ao menos um grande filme político e um grande filme de guerra, sendo essas características praticamente um pré-requisito para que as premiações tenham algum sentido. Logicamente, um filme de guerra é uma obra política e vice-versa, mas existem quesitos a serem priorizados caso você opte por uma das denominações, e é precisamente neste ponto que O Destino de Uma Nação está léguas a frente de seu concorrente de guerra Dunkirk e seu concorrente político The Post – A Guerra Secreta. O longa de Joe Wright coloca em voga um dos vencedores da guerra mais devastadora da história, uma figura pública excêntrica, controversa e eternizada como um ícone.

Quem conhece um pouco da história da Segunda Guerra Mundial, sabe que um dos nomes mais importantes deste tenebroso período vivido pela raça humana foi o primeiro ministro britânico Winston Churchill que, de surpresa, assumiu o poder e enfrentou não somente as adversidades de uma guerra, mas também a descrença do próprio partido. Justamente neste período, de uma guerra que durou seis anos, está localizado O Destino de Uma Nação, quando Churchill se vê tão encurralado quanto as suas tropas, cerca de trezentos mil homens, presas em Dunquerque. Se você já assistiu ao filme Dunkirk (leia a nossa crítica) ficou muito mais fácil de mensurar o problema que o primeiro ministro tinha nas mãos.

Ao contrário de Dunkirk, onde Christopher Nolan executa um roteiro sem muitas informações, e de The Post – A Guerra Secreta, no qual Steven Spielberg abusa da didática e prejudica o desenvolvimento da trama, Joe Wright trabalha todas as informações necessárias na medida certa. Desde a apresentação de Winston, um homem já maltratado pela idade e pelos anos na política, mas que luta pelos seus ideais e princípios com unhas e dentes, passando pelos metagolpes recorrentes dentro do parlamento britânico à época, até chegar ao horror e desespero gerado pelas batalhas. Tudo funciona para exaltar a figura do ex-primeiro ministro.

O Destino de Uma Nação

Mas nada disso seria possível se não fosse por Gary Oldman. Não temos qualquer dúvida em dizer que o ator já altamente premiado por essa atuação, incluindo o Globo de Ouro, o SAG e o BAFTA, merece o seu lugar junto as maiores atuações biográficas da história do cinema. Oldman não incorpora somente os já caricatos trejeitos de Churchill, como o seu estranho jeito de falar e a relação estreita com o charuto, o ator vai além e consegue reproduzir de uma forma assustadora os grandes discursos proferidos pelo ex-primeiro ministro. Como já dito, Oldman não se apega somente no que comumente é visto nas interpretações de Churchill, ele consegue ir além e incorporar o desespero, o orgulho e também a humilhação necessárias ao papel.

Joe Wright trabalha as suas câmeras para deixar Oldman brilhar sozinho nas telas. A fotografia de Bruno Delbonnel cria, do início ao fim, uma atmosfera dramática e soturna que acompanha o personagem principal. A Europa vive um drama, a Inglaterra está à beira da destruição e Winston é atormentado pela iminência de sua própria queda a todo tempo, isso fica evidente a cada ambiente sombrio e nas figuras pouco iluminadas, passíveis de desconfiança ou desconfiadas, com quem ele se relaciona durante a trama.

Mas como nem tudo é perfeito, O Destino de Uma Nação peca exatamente no mesmo ponto em que Dunkirk pecou. A romantização e a imagem do nacionalismo exacerbado adentram a película exatamente no momento em que ela poderia ser melhor. Quando Churchill toma a atitude de consultar o povo inglês, o filme perde o seu caráter verossímil e abre as portas para a entrada de um roteiro muito semelhante aqueles realizados no período pós-guerra. Não que os ingleses não tenham lutado por sua pátria, honra e soberania, mas diante de uma possível invasão alemã, dificilmente vários indivíduos reagiriam de maneira tão magistral em frases de efeito e com a segurança de enfrentar batalhas catastróficas com o ímpeto dos guerreiros de Homero. Porém, a carga emotiva empregada por Gary Oldman funciona e é possível se comover com o orgulho inglês.

Imagem divulgação – O Destino de Uma Nação

E se, por um lado, o diretor acerta – mesmo com os excessos – nas questões que tocam a guerra, ele erra ao deixar de lado traços importantes da vida de Winston Churchill e, para variar, esses traços são mulheres. A esposa de Churchill, Clementine Churchill, surge apenas como um tapa buraco para as cenas em que o próprio Churchill não aparece, ou seja, pouquíssimas vezes e portando uma frase que em nada acrescenta à trama. O que é uma pena, tendo em vista que, não é preciso ser um grande conhecer da história dos personagens para saber que Clementine foi uma peça crucial que sustentou o primeiro ministro em todo o seu pesado fardo. O mesmo ocorre com a sua datilógrafa particular, que aparece com grande potência e expectativa para desaparecer na escuridão da fotografia e da figura de Churchill.

Por esses motivos, O Destino de Uma Nação não ganha uma passagem direta para o panteão das melhores produções do gênero e, por hora, estaciona como uma excelente produção que exalta aquilo que outras tantas já exaltaram, porém com um nível técnico e estético superior.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: Darkest Hour
  • Direção: Joe Wright
  • Roteiro: Anthony McCarten
  • Elenco: Gary Oldman, Lily James, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Ronald Pickup, Stephen Dillane, Nicholas Jones, Samuel West

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