Crítica | O Estranho Que Nós Amamos: onde está o problema do filme de Sofia Coppola?

the-beguiled
Imagem divulgação – O Estranho Que Nós Amamos

O Estranho Que Nós Amamos, o sexto longa dirigido por Sofia Coppola, levou a diretora ao prêmio de melhor direção em Cannes. Méritos técnicos para receber essa premiação sem dúvida nenhuma o filme de Coppola possui, o único problema é a perspectiva narrativa escolhida e a maneira como é utilizada.

A produção, apesar de divulgada como um remake do filme de Don Sieger, lançado em 1971 e protagonizado por Clint Eastwood, é, na verdade, uma segunda adaptação do livro homônimo de Thomas Cullian, e traz a história de um soldado inimigo ferido que é encontrado e socorrido por uma menina que vive em uma escola só para mulheres, em meio à guerra civil estadunidense. O argumento é fantástico, Sofia Coppola tinha a chance de entregar algo completamente diferente do bizarro e machista filme de Sieger, e ela entrega.

A versão de Coppola promove cortes de cenas e de personagens essenciais, nesse caso, a diretora opta por fugir de polêmicas, e mesmo com o que foi levado às telas, o que percebemos o tempo inteiro é uma narrativa que foge e se esquiva o tempo inteiro das mais famosas problemáticas do século XXI. Em meio a um filme ambientado em uma guerra movida, inclusive, pela questão da escravidão, a direção opta por embranquecer completamente o elenco, além de enfraquecer e tornar quase apáticas as personagens femininas, em uma obra que supostamente seria vista através do olhar feminino.

Que fique claro, O Estranho Que Nós Amamos não é um filme ruim, muito pelo contrário. Sofia Coppola cumpre com excelência o seu papel na direção, a fotografia é belíssima e nos comunica a vida sem grandes esperanças que essas personagens vivem durante o momento de guerra, enquanto a luz que sempre habita a janela do quarto onde o soldado está abrigado eleva algum tipo de esperança. A mesa de jantar em uma penumbra representa muito mais do que a ausência de energia elétrica, mas a disputa entre todas aquelas mulheres e os desejos secretos que elas passam a esconder uma das outras. A estética e a técnica do filme são realmente louváveis e Coppola honra o prêmio de melhor direção em Cannes, o seu erro foi crer que a técnica seria capaz de se sobrepor ao que faltou no desenvolvimento do enredo.

The Beguiled
Imagem divulgação – O Estranho Que Nós Amamos

Se a ideia era transmitir uma visão feminina ao público, o filme falha completamente. Descobrimos pouquíssimo das personagens ao longo do desenvolvimento da trama, ao mesmo tempo que o soldado, a figura masculina geradora do enredo, assume uma postura extremamente amena, um bom moço literalmente implorando para ser aceito, já que a estratégia de manipulação utilizada por ele se mantém em um nível quase inexistente.

A grande problemática visível no longa, é a necessidade de esconder os conflitos existentes na obra original. Quando imaginamos o potencial que o filme teria sem os cortes realizados, a vitória de melhor filme em Cannes seria certa, mas ao se abster de representar o todo, Coppola passa a faca em personalidades com tremendo potencial e desperdiça o aprofundamento de personagens e também de elenco, como as gigantes Nicole Kidman e Kirsten Dunst.

O Estranho Que Nós Amamos possui uma narrativa, em diversos momentos, inverossímil e se apega na ideia de mulheres isoladas, deslumbradas por um homem estranho e parece não se preocupar em discorrer sobre o que realmente se passa com essas mulheres. Coppola é magistral em captar as tensões no ambiente, principalmente a sexual, mas peca em não demonstrar o que está por trás de toda essa tensão, porque somente a chegada de um macho alfa como motivo é reduzir essas mulheres ao famigerado receptáculo de espermas.

 

FICHA TÉCNICA:

  • Direção: Sofia Coppola
  • Roteiro: Albert Maltz, Irene Kamp, Sofia Coppola, Thomas Cullinan
  • Produção: Sofia Coppola, Youree Henley
  • Fotografia: Philippe Le Sourd
  • Trilha Sonora: Laura Karpman, Phoenix
  • Estúdio: American Zoetrope, FR Productions
  • Montador: Sarah Flack
  • Distribuidora: Universal Pictures

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.