Crítica | Ressurreição: o sobrenatural e a febre amarela unidos em um filme de terror

O cinema de terror enfrenta os seus problemas já há algum tempo e quem acompanha este site conhece todas as nossas ressalvas ao maldito gênero que se criou a partir de clássicos – como O Chamado e O Grito – que buscam repetir uma fórmula predeterminada de afundar o público em sustos e mais sustos, sem se dar ao trabalho de criar uma história realmente aterrorizante para, ao menos, termos um porquê de nos assustarmos com técnicas de som e imagem que beiram ao ridículo. A gente sabe que produzir um bom terror não é fácil, mas sabemos também que o caminho mais fácil para conquistar bilheterias medianas é a estratégia que vem sendo empregada pelos estúdios.

Diante disso, faz muito bem, às vezes, desistir da busca em meio ao cenário hollywoodiano ou de filmes B – nada contra, na verdade a gente adora uma farofa – e partir para uma busca em títulos de outros países. Afinal de contas, experiências diferentes, geram olhares e histórias diferentes e esse é exatamente o caso do filme argentino Ressurreição, de Gonzalo Calzada.

A trama acompanha um jovem padre que, munido de sua suposta fé fervorosa, decide ir à Buenos Aires enfrentar um surto de febre amarela. Contudo, ele acaba fazendo um desvio e realiza uma parada no sítio da família, onde a febre irá colocar sua fé à prova.

Ressurreição trata o mistério como prioridade, o que funciona perfeitamente em um longa de terror. A maquiagem, o figurino, o cenário, a composição dos personagens, tudo é pensado nos mínimos detalhes para criar uma atmosfera na qual a tensão e o medo são gerados a partir daquilo o que ainda não sabemos. Nem nós, nem os personagens.

Em uma mistura de fantasia com uma espécie de terror gótico, o longa está dividido em atos e se apresenta realmente como uma peça de teatro. Desde a construção do cenário, passando pela direção excessivamente dramática, direção de arte extravagante, até as atuações que caberiam perfeitamente em um palco. Esses traços podem causar um certo incômodo a princípio, mas nada que não seja superado rapidamente na primeira meia hora de filme.

Imagem divulgação – Ressurreição

A fé é o ponto chave do longa. Não somente a fé em uma entidade sobrenatural, como também a fé naqueles que nos rodeiam. Para testar o ato de acreditar cegamente em algo, o roteiro utiliza o artifício da morte, embrenhando-se por caminhos que nos levam a discussões morais, éticas, religiosas e de diversas outras naturezas filosóficas. O desespero com relação à uma doença pouco conhecida, para uma pessoa extremamente religiosa, torna latente as dúvidas sobre a salvação ou o amor divino. Os delírios, a dor e o cansaço confundem as vias da realidade e a fé se transforma em puro instinto de sobrevivência.

Nesse aspecto mora o problema central do filme que, ao se apegar demais em reflexões sobre o real e irreal, o certo e o errado, o princípio e o fim, acaba tornando-se cansativo em alguns momentos, dando destaque demais a conflitos pequenos, enquanto grandes decisões acontecem de uma hora para outra, com rompantes desnecessários por parte dos personagens.

Para se recuperar, o longa utiliza um excelente plot twist para retomar o fôlego, mas muito do tempo de exibição já havia sido utilizado e quando sobem os créditos finais, a impressão que fica é a de que algo deixou de ser dito ou foi dito com tamanha rapidez que perdemos o fio da meada. Uma pena, tendo em vista que o conjunto da obra mostrou-se muito satisfatório.

De maneira geral, Ressurreição se apresenta como um ótimo título do gênero, permitindo ao espectador sentir os estágios de dúvida, medo, desespero e um misto de salvação e condenação vividos pelos personagens. Uma produção que não se entrega ao ritmo acelerado da indústria cinematográfica e demonstra o avanço do terror na América Latina.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: Resurrección, 2015
  • Direção: Gonzalo Calzada
  • Roteiro: Gonzalo Calzada
  • Elenco: Adrián Navarro, Ana Fontán, Diego Alonso, Fernando Gonzalez Oubiña, Lola Ahumada, Martin Slipak, Patricio Contreras, Silvana Di Sanzo, Vando Villamil.