Crítica | Roma: a obra prima que finalmente levou a Netflix ao Oscar

Indicado em dez categorias ao Oscar desse ano, o filme Roma, de Alfonso Cuarón, ultrapassa uma série de barreiras dentro e fora das telas. Fato que pode não levar o longa a tornar-se o vencedor da maior premiação cinematográfica do globo, mas certamente o imortaliza como uma obra prima capaz de conectar passado, presente e futuro através de poesia e crítica social.

A trama narra a história de Cleo, que trabalha como doméstica e babá para uma família de classe média na Cidade do México, e vive o seu cotidiano de maneira simples, como qualquer outra mulher na mesma condição. Mas a simplicidade do dia a dia de Cleo conta com uma complexidade infinita, que Cuarón realiza um excelente trabalho em transmitir.

O mexicano apostou na Netflix para distribuir o seu longa, o que leva o serviço de streaming à sua primeira indicação ao Oscar,  e que significa também uma enorme virada para o cinema. Cuarón abdicou de um estúpido pensamento carregado por diretores como Almodóvar, e leva o seu excelente cinema para os mais diversos lugares do mundo, onde o cinema, enquanto espaço físico, nunca sequer pensou em chegar, mas a Netflix aporta em qualquer internet de 650kbps, como já foi o nosso caso. Ter Roma na Netflix, significa ter uma obra de beleza estupenda beleza acessível e sem gastos exorbitantes.

Roma é um filme que caminha do intimista a um conto épico, sem precisar criar um alarde. A construção dos personagens é formidável, unindo o texto à uma fotografia que abusa dos ares contidos para explodir sensações no espectador, em momentos triviais como colocar as roupas no varal ou lavar a louça, ao passo que também nos vemos imersos em situações mais tensas como um tiroteio e um parto, sem a necessidade do estardalhaço, mas em uma completa agonia.

As metáforas e críticas sociais estão por toda parte. Mas a complicada situação em que mulheres se encontram dentro do sistema masculino, é escancarada. O diretor e também roteirista, faz questão de demonstrar que seja rico ou pobre, o homem usa e abusa de seus privilégios masculinos, enquanto mulheres, também de diferentes classes sociais, precisam tomar decisões complexas para lidar com a carga pesada imposta sobre elas do início ao fim da vida. Sofia, vivida por Marina de Tavira, deve lidar com a negação, a raiva e o sofrimento de se reerguer, enquanto Cleo, interpretada pela iniciante Yalitza Aparicio, realiza a sua narrativa central cruzando todas as outras em uma verdadeira e dura caminhada de aprendizado e amadurecimento. A narrativa de ambas, em certa medida, exibe uma solidariedade natural entre mulheres que conhecem a difícil jornada de ser uma mulher.

Roma é um filme que merece e deve ser visto por todos. Apesar da simplicidade, é um filme difícil de digerir. A sua complexidade está exatamente na sinceridade de cada olhar apontado por Cuarón. Sinceridade que nos atravessa e marca, um filme que demora a terminar dentro de nós, mesmo depois do fim.