Crítica | The Square – A Arte da Discórdia

The Square, filme do diretor sueco Robert Östlund, recebeu o subtítulo de “A Arte da Discórdia” no Brasil e, curiosamente e impressionantemente, esse subtítulo torna-se perfeitamente adequado quando terminamos de assistir o longa. O vencedor da Palma de Ouro em Cannes, possui um tom ácido que toca nos mais variados absurdos relacionados à arte contemporânea, repleta de manifestos que não fazem o mínimo sentido, mas que são absorvidos como o que o mundo tem de melhor a oferecer artisticamente.

Na trama, temos Christian, curador do Museu de Arte Contemporânea de Estocolmo, que prepara uma grande exposição relacionada a um quadro – que dá nome ao filme – onde as pessoas devem se tratar igualmente e serem gentis. A temática da exposição se choca com a vida de Christian, quando ele tem o seu celular roubado. A partir daí, uma série de acontecimentos colocarão o curador e o seu comportamento à prova de maneira constante.

Não é incomum ouvirmos por aí que a arte contemporânea “não faz sentido” e os mais leigos se resguardam o direito de responder que “não entendem de arte”.  É exatamente sobre esse fenômeno que The Square irá tratar em sua narrativa, acompanhado de uma forte crítica sobre a sociedade neoliberal. Östlund é contundente e não tem qualquer pudor ao retratar e contrapor a soberba sociedade artística e intelectual com a grande parte da população que não consegue enxergar qualquer nexo em montes de gravetos expostos em um museu.

Todavia, o campo da arte possui as suas lógicas próprias de funcionamento, mas não foge da lógica maior que move as sociedades, e essa é uma das principais críticas feitas pelo filme. Fazer parte do grupo que decide o que é ou não arte, concede privilégios, esse privilégio é social, mas ocorre somente por seu valor financeiro. O choque presente em quase todos os momentos do longa corresponde ao fato de que adoramos apenas um deus, e esse deus é chamado de dinheiro. Dinheiro gera poder, a ausência cria desigualdade, a má distribuição provoca divergências. E mesmo que grande parte da população e dos governantes saibam de todas as mazelas provocadas pelo dinheiro, isso não importa, porque o dinheiro foi a maneira encontrada para justificarmos a lógica animal de que é preciso existir um indivíduo mais poderoso.

Imagem divulgação – The Square

Dentro desse aspecto, as relações digitais que tanto auxiliam para a diminuição das desigualdades, também funcionam para propagar polêmicas envolvendo grupos sociais – movimento negro, mulheres, LGBTQ+, entre outros. Não é incomum que ações de relevância social real não viralizem, enquanto polêmicas de exceção, como uma ministra negra comparando um salário de 31 mil reais com um regime de escravidão, ganhem as redes sociais como uma forma de deslegitimar uma população inteira que ainda luta por direitos básicos. The Square constrói situações absurdas, mas que muito se assemelham ao que vivemos diariamente com distorções midiáticas, fake news e discursos de ódio protegidos por uma suposta liberdade de expressão que existe somente quando convém.

Em determinados momentos, o longa pode parecer um tanto quanto perdido em seu foco, colocando o protagonista em circunstâncias diversas, assim como o seu local de trabalho convive com questões que não necessariamente conversam com o tema principal, contudo, a produção se caracteriza pela construção de um universo efêmero e das relações que se desmancham em um piscar de olhos. A consistência do filme está em sua capacidade de manter um misto de tensão com vergonha diante dos absurdos recorrentes.

São 140 minutos de projeção que provocam um desconforto contínuo. As metáforas e analogias que transformam a nossa sociedade civilizada em um ambiente tão caótico – que não poderia de maneira nenhuma ser comparado com a selva – estão por todos os lugares: desde macacos domésticos, até humanos bestializados. The Square é um retrato sobre a humanidade que alcançou um estágio evolutivo tão avançado, mas que ainda precisa de um quadrado especial para tratar os demais com gentileza e cuidado.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: The Square
  • País: Alemanha / Dinamarca / França / Suécia, 2017
  • Direção: Ruben Östlund
  • Roteiro: Ruben Östlund
  • Elenco: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West, Terry Notary, Christopher Læssø, Linda Anborg, Annica Liljeblad

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