Crítica | The Tale: até que ponto as suas lembranças são reais?

“A história que você está prestes a ver é verdadeira… tanto quanto eu sei.”

As nossas vidas são feitas de histórias, muitas delas verdadeiras, muitas delas montadas, várias delas que criamos para nos defender dos nossos medos, traumas, inseguranças e incertezas. Não se tratam de mentiras que construímos para viver bem em nossos próprios mundos, mas sim de verdades que tornam uma época, um momento, uma fase mais aceitáveis para que a loucura não tome conta de nossas mentes. The Tale é um retrato profundo de memórias confusas, transformadas e arquitetadas para corresponder a uma personalidade que surgiu após um evento traumático.

A trama começa quando Jenny, uma mulher de quase cinquenta anos, recebe de sua mãe uma história que ela havia escrito ainda em sua infância, quando tinha treze anos, onde ela expõe uma relação com o seu treinador de corrida e a sua professora de equitação. Para Jenny, no auge de sua fase adulta, aquela situação havia sido normal, enquanto a sua mãe horrorizada, insiste para que ela revisite as suas memórias.

Alguns dos pontos mais interessantes de The Tale se constroem através da negação da personagem principal, vivida brilhantemente pela atriz Laura Dern. Ela acredita piamente que a sua relação, uma garota de treze anos, com um homem de pelo menos quarenta, era algo natural para os anos setenta, afinal de contas, “são os anos setenta, quem não passou por isso?” O problema é que essa negação vinha a partir de diversos recortes que ela havia criado para si daquela época: a sua lembrança de si mesma era mais velha do que realmente era, ela não era tão mais adulta do que as outras crianças, o seu treinador que era altamente manipulador, a sua família não tinha tantos problemas assim, foram os seus abusadores que criaram essa imagem. Jenny vivia uma lembrança criada para que ela não sentisse vergonha de si mesma.

Deste ponto em diante, ela se joga em um poço confuso de memórias, onde revisita, junto de sua versão mais jovem, as suas lembranças. A memória e a percepção de Jenny podem ser confusas, mas a direção e o roteiro de Jennifer Fox são tão excruciantemente diretos, que talvez você tenha que pausar o filme algumas vezes, virar o seu olhar ou simplesmente sentir que a sua respiração já não é mais a mesma. Fox sabe muito bem qual é o seu objetivo e não tem medo nenhum de conseguir atingi-lo.

Imagem divulgação – The Tale

Ao invadir as suas próprias memórias, ela questiona as lembranças que possui de seus algozes e são os próprios que a levam a reviver os momentos. As imagens dos abusos que Jenny esconde em sua cabeça são terríveis. Todas as lembranças são representadas do ponto de vista não da Jenny adulta, mas da Jenny de treze anos. A sensação ao assisti-las é angustiante, claustrofóbica, é desesperador. Assim como o confronto entre ela e sua mãe que projetou o desconhecimento, quando, na verdade, no fundo ela sabia de tudo, mas só sente coragem de tocar na ferida mais de trinta anos depois.

As versões de Jenny adulta e criança se conversam tão bem, que é possível enxergar a dúvida, o medo, a raiva, a humilhação e a dor em todos os momentos. O filme trabalha com sutileza os pensamentos que ambas possuem através do jogo entre as suas vozes que transitam entre o presente e as lembranças. E quando o presente realmente se choca com a lembrança, o impacto é tão forte, que conseguimos compreender com magnitude o que Jennifer Fox quer nos dizer.

As lembranças de Jenny são as lembranças de Jennifer Fox, mas a diretora, que passou por todo o drama, insiste em repetir que esse tipo de história se repete por todo o mundo, nos mesmos moldes, a todo momento. Que muitas e muitos possuem lembranças altamente semelhantes, mas que ninguém quer lembrar, ninguém quer contar e, o principal, ninguém quer ouvir. E foi por isso que Fox resolveu realizar The Tale, porque as pessoas iriam ouvir.

The Tale, além de mexer com as nossas mentes e corações de uma forma extremamente dolorosa, ainda nos faz refletir sobre nossas próprias memórias. Até que ponto foi só um relacionamento com um cara mais velho? Até que ponto a gente realmente queria uma relação? Tudo o que eu me lembro é real ou as minhas lembranças são fruto de uma manipulação ou uma estratégia de defesa? A verdade nem sempre é o que queremos enxergar e Jennifer Fox exerceu o primoroso trabalho não só de enxergá-la, mas também de transmiti-la.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: The Tale
  • Ano: 2018
  • Direção: Jennifer Fox
  • Roteiro: Jennifer Fox
  • Elenco: Laura Dern, Isabelle Nélisse, Elizabeth Debicki, Jason Ritter, Frances Conroy And John Heard, Common, and Ellen Burstyn