Crítica | Túmulo dos Vagalumes: extraordinária beleza em um filme de guerra

Caso você já tenha assistido ao filme e não tenha, de maneira nenhuma, gostado ou, ao menos, sentido algo, a sugestão que damos é que pare de ler por aqui ou continue por sua conta em risco de talvez mudar de ideia.

Túmulo dos Vagalumes – ou Cemitério de Vagalumes, como também é conhecido em português – é uma obra do Studio Ghibli que merece e deve entrar para o hall, não só das maiores animações, mas dos melhores e mais tocantes filmes de todos os tempos. São poucos, melhor dizendo, são raras as produções que conseguem demonstrar com tamanha beleza e profundidade os horrores e as tristezas que uma guerra pode causar.

Ambientado em 1945 no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial, a mais catastrófica guerra já realizada pelos homens, o filme de Isao Takahata retrata a história de um casal de irmãos que, ao ficarem órfãos, devem fazer o possível para sobreviver em lugares e com pessoas extremamente hostis. Túmulo de Vagalumes poderia tratar, como diversas outras obras tratam, do combate em si, da luta em trincheiras, das batalhas navais ou dos próprios kamikazes, mas não. Takahata retratou o que esses conflitos possuem de mais doloroso: as crianças e a sua luta para permanecerem vivas.

8YUOPp10K8qX3yGBR123ZMtAXQd
Imagem divulgação – Túmulo dos Vagalumes

Animações do Studio Ghibli possuem por tradição um caráter de grandes reflexões, não se propõem a serem fáceis de assistir ou digerir, são montadas para causar mal estar ou emoções fortes. Túmulo de Vagalumes tem tudo isso com um adendo de uma beleza muito particular, algo que de tão simples e sincero, é capaz de baixar a guarda do ser humano menos aberto ao tema. Não leva mais do que cinco minutos para que estejamos completamente imersos na história, o primeiro olhar nos personagens gera uma simpatia instantânea, daí para frente, o espectador será capaz apenas de viver as desventuras dessas crianças.

Os personagens nos levam a um outro ponto de grande relevância: a capacidade de dar à figuras animadas personalidades tão peculiares e magnificamente trabalhadas. Como não se apaixonar por uma menininha tão inocente e ingênua? Como não se apegar a um jovem que dedica todas as suas forças para cuidar e proteger a irmã do medo e da dor? Essa construção magistral nos transporta de uma forma tão bela para o contexto de guerra que, em certos momentos, mesmo com os bombardeios, o que nós enxergamos é um filme sobre o amor.

Os vagalumes são o pano de fundo da esperança. O mundo está ruindo, pessoas estão no limite, a comida está escassa, mas enquanto vagalumes brilharem aos olhos de uma criança, algum tipo de felicidade e satisfação ainda podem existir. O problema é que, assim como a metáfora do título, a luz desses insetos é linda, mas efêmera, a esperança não dura para sempre e, por mais que se lute, onde antes era magia posteriormente se converte em tristeza e solidão. Eventualmente, tudo deixa de brilhar.

studio glibh
Imagem divulgação – Túmulo dos Vagalumes

A trilha sonora melancólica e as cenas em silêncio, contemplativas, criam uma atmosfera que pouco a pouco vão deixando claro qual será o fim. A certeza de que o final não será o esperado dentro de um padrão é incômoda, porém é a certeza que qualquer um possui ao idealizar momentos de guerra e horror. O desespero, a dor, a espera pelo pior estão atirados na tela como uma verdade que todos nós precisamos engolir.

Ao fim, quando finalmente sobem os créditos, não temos qualquer alívio. A verdade é que o Túmulo de Vagalumes permanece em estadia dentro de nós por algum tempo. A profundidade do relacionamento entre os irmãos e as cenas finais que mostram como uma criança passava as suas horas enquanto esperava pelo retorno do irmão que procurava por meios para mantê-los vivos, é a fagulha final para fazer correr as lágrimas de um público imerso na experiência que é essa aparentemente inofensiva animação.

Túmulo de Vagalumes é considerada por muitos um dos melhores filmes de guerra da história, mas como já dissemos acima, a obra é muito mais do que isso, é uma lição de força, coragem, confiança e, principalmente, amor.

Ficha Técnica:  

  • Direção:  Isao Takahata
  • Duração:  88 minutos
  • Roteiro: Isao Takahata
  • Produção: Toru Hara
  • Diretor de fotografia: Nobuo Koyama
  • Engenheiro de som: Yasuo Uragami

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.