Cultura nas Capitais | Pesquisa revela detalhes sobre o acesso às produções culturais no Brasil

Uma nova pesquisa divulgada pelo Ministério da Cultura, traz importantes, mas nada surpreendentes, indicadores culturais sobre doze estados do país. A pesquisa Cultura nas Capitais releva os hábitos culturais da população, assim como a capacidade que a mesma possui de acessar às produções culturais.

Foram entrevistadas 10.630 pessoas, com idade a partir dos doze anos, nas capitais mais populosas do Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Manaus, Recife, Porto Alegre, Belém e São Luís.

Os resultados demonstram que a leitura é a atividade cultural mais executada pelos brasileiros dessas capitais, seguida do cinema, shows de música, festas populares e feiras de artesanato. Biblioteca e espetáculos de dança aparecem na frente dos museus e teatros, enquanto a música erudita é pouco frequentada.

Para além disso, os resultados mostram também uma enorme discrepância entre aqueles que possuem o acesso às produções culturais pagas e aqueles que não, assim como torna evidente que o grau de escolarização está diretamente ligado a maior procura por produções culturais. João Leiva, diretor da consultoria JLeiva Cultura e Esporte, responsável pela pesquisa, afirmou que:

“Acredito que a pesquisa evidencia nossos contrastes. O acesso à cultura reflete a desigualdade no Brasil. De um lado, fica clara a importância da cultura na vida dos brasileiros que vivem nas 12 capitais pesquisadas. Mas por outro lado, o percentual de pessoas que nunca na vida tiveram a oportunidade de ir a um teatro, a um museu ou a um show de música também são impressionantes: 12 milhões, 10 milhões e 7 milhões, respectivamente. Não são pessoas que não foram no último ano, mas que nunca foram. E vivem nas cidades com maior oferta de atividades culturais do país.” João Leiva em entrevista ao Jornal OGlobo.

Duas questões devem ser pontuadas na declaração de Leiva. O primeiro ponto é que não existe acesso à cultura. Cultura é algo que todos nós vivemos a todo momento, todos os nossos hábitos, crenças, valores, modos de agir, são fatores culturais. O que existe é o acesso às produções culturais e artísticas e, sobre esse tipo de acesso, fica nítida a desigualdade social, isso vai desde os valores do cinema, passando pelos altos valores de uma peça teatral, até os exorbitantes custos de ingressos para shows de música. Pode parecer apenas uma maneira de falar, mas quando usamos “acesso à cultura” pressupomos que uns tem cultura, enquanto outros não, ou ainda, que uma cultura é melhor do que a outra. Esse tipo de senso comum é perigoso e não deve ser reproduzido.

O segundo ponto está relacionado ao grau de escolaridade que, usualmente, faz uma pessoa se sentir pertencente ou não a um espaço cultural. A formação de público é um tema pouco discutido pelos setores responsáveis pela área cultural no Brasil. É desonesto exigir de uma população que nunca foi apresentada a um teatro ou a um museu, que ela se interesse por essas linguagens a partir do nada.

Ao longo dos anos, o Ministério da Cultura realiza pesquisas do gênero, mas a realidade é que esses estudos dão poucos ou quase nenhum fruto. A ampliação do acesso às produções culturais é de suma importância, isso é um fato inegável, mas enquanto o Brasil não conseguir lidar com a deficiência dos setores educacionais, além de conseguir lidar com a gritante desigualdade social, continuaremos, ano após ano, lendo pesquisas que afirmam o óbvio.

Acesse a pesquisa aqui e saiba mais sobre “como 33 milhões de brasileiros consomem diversão e arte”.