Festival de Cannes | Pequeno número de cineastas mulheres é fato histórico e não pode ser ignorado

Apesar de ter um júri com maioria de mulheres neste ano, o panorama geral com relação a equidade de gênero precisa ser muito bem revisto. A presença de mulheres diretoras ao longo dos 71 anos de festival representa sempre exceções.

Um relatório apresentado pela agência France Presse demonstra não uma irregularidade, mas, de fato, uma regularidade com relação ao número ínfimo de cineastas mulheres. Esse fato, logicamente se reflete na premiação, até hoje 268 cineastas foram premiados em Cannes (incluindo a Palma de Ouro e o Grand Prix), deste total, somente 11 eram mulheres. Apenas uma mulher recebeu a Palma de Ouro em 71 anos de festival.

Com relação aos prêmios específicos para a direção e roteiro, apenas 4 mulheres receberam, em um total de 111 vencedores. Dois deles foram entregues no ano passado.  Esse é um retrospecto gritante na narrativa geral do mais prestigiado festival de cinema do mundo.

Mas a ausência de prêmios é um reflexo do baixo número de mulheres selecionadas. A agência aponta que dos 1.780 filmes selecionados para as mostras e competição oficial, somente 83 foram dirigidos por mulheres. O fato repete-se em 2018, dos 21 filmes participantes da mostra competitiva, apenas três são de diretoras.

A organização do festival aponta em sua defesa que os números são um espelho do campo que realmente possui poucas mulheres nas funções técnicas do cinema.

Nos últimos anos, ficou mais do que comprovado que as mulheres no cinema são muitas, o que elas precisam são de oportunidades e visibilidade. O posicionamento de Cannes, na verdade, funciona como uma ótima maneira de se isentar da responsabilidade. O júri, por exemplo, tornou-se paritário apenas em 2013, no decorrer da história 172 mulheres estiveram presentes, enquanto homens totalizaram 575. Apenas 12 mulheres presidiram o júri.

O Festival de Cannes vêm se reinventando e transformando o seu próprio espaço, mas o caminho a ser percorrido ainda é longo. Em 2018, ainda é necessário que uma atriz da magnitude de Cate Blanchett, presidente do júri deste ano, afirme que “ser bonita não é sinônimo de falta de inteligência”. Cannes precisa caminhar, o mundo precisa caminhar.

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