Okja: uma ficção mais do que inconveniente

Okja não é um filme fácil de ser digerido e isso em todos os sentidos que essa expressão possa ter. A produção do Netflix aclamada em Cannes e grande geradora de polêmica, chegou à plataforma no último dia 28 e toca bem fundo na ferida do mercado das carnes e dos alimentos derivados de animais.

A obra Joon-Ho Bong (Expresso do Amanhã) consegue mesclar ação, humor barato e ficção científica em um complexo drama que é capaz de fazer o ser humano mais apaixonado por carne e que não se importa com a questão do animal, sentir-se mal, aflito e culpado.

Apesar de ser tratada como uma super porca, Okja, que empresta o nome ao filme, possui uma aparência que lembra muito mais um hipopótamo com grandes orelhas. Esse formato faz com que o animal ganhe um ar dócil, com um brilho em seu olhar que logo na primeira cena conquista quem está assistindo. E é exatamente nas primeiras cenas que já entendemos o caminho que a trama irá tomar. A ligação entre o animal e Mikha (Seo-Hyun Ahn), mais do que sua dona, sua amiga, é algo que, ao mesmo tempo que comove, gera um certo incômodo, afinal, fica claro qual é o destino de Okja.

A história se desenrola e a crueldade do ser humano ou a sua capacidade de cometer atrocidades com a desculpa de que os fins justificam os meios se torna cada vez mais evidente, seja no momento em que um membro do grupo de proteção animal envia Okja direto para um laboratório, enganando uma jovem menina, ou quando a amizade entre elas é usada como propaganda.

Mesmo que os personagens possuam um tom de comédia caricata do início ao fim, nada no filme é engraçado, muito pelo contrário, o incômodo é constante. Em um segundo momento arrastado do filme, onde o enredo poderia se desenvolver mais, fica claro que o tom sensacionalista em fazer com que o animal sofra é intencional: é preciso mostrar do que o mercado é capaz.

Todavia, a obra carrega uma beleza que, talvez, não seja possível descrever. O amor de Mikha por Okja é tão grande que em absolutamente momento nenhum ela sequer pensa em desistir de sua jornada para salvar a sua amiga. A jovem coreana é a única realmente capaz de entender o animal e toda a sua dor, enquanto para os demais, Okja é apenas um pedaço de carne ou audiência para uma causa.

Seo-Hyun Ahn impressiona e chama a atenção para a sua atuação. Sua saga ao reencontro de Okja, apesar de surreal, é cativante. A personagem esbanja força e determinação, ninguém é capaz de detê-la. Ao fim, quando tudo parece estar perdido para ela, a menina é capaz de jogar o jogo do capitalismo e, finalmente, acaba com o sofrimento do animal.
O elenco conta também com Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin) no papel de Nancy Mirando, uma empresária que tenta melhorar a imagem de sua empresa através de uma fachada de sustentabilidade, enquanto por dentro, o uso de elementos químicos, experiências e maus tratos são a prerrogativa máxima da companhia. Swinton interpreta também a gêmea de Nancy, Lucy: uma imagem não é necessária, apenas a venda, o sucesso, os lucros. A atriz mais uma vez demonstra o seu talento em alguns nuances das personagens que exigem uma grande atuação.

Temos ainda Jake Gyllenhaal (Donnie Darko) como o medíocre Dr. Johnny Wilcox, zoólogo que vendeu qualquer tipo de amor que já teve pelos animais, por uma imagem na mídia. Wilcox também é usado como um modelo para exemplificar o caráter descartável de uma figura humana publicitária. No entanto, o personagem não convence, Gyllenhaal abusa dos exageros e cria uma atmosfera falsa e irritante em quase todas as suas cenas.

O filme traz ainda a presença de Paul Dano (Um Cadáver para Sobreviver), Steven Yeun (The Walking Dead) e Lily Collins (Simplesmente Acontece) interpretando ativistas da Liberation Animal Front.

Almodóvar, ainda em Cannes, criou uma polêmica ao afirmar que filmes foram feitos para serem vistos no cinema, e que por isso, os filmes enviados pelo Netflix não deveriam ser julgados. Okja realmente não é um filme para ser visto no cinema, Okja é um filme para ser visto em todos os lugares, em todas as janelas de exibição, merecendo, sem dúvida nenhuma, ser avaliado em todas as categorias pertinentes, porém, mais do que tudo, merece e deve ser visto pela sua importância dentro de um mundo doente e carente de qualquer perspectiva de mudança.

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