Crítica | Suprema: lutar pelo legado de Ruth Ginsburg é obrigação de toda mulher

Nesta semana (18 de setembro) perdemos um dois maiores ícones pela igualdade de gênero da história. Ruth Bader Ginsburg foi a responsável por criar precedentes utilizados até hoje na discussão de gênero no que diz respeito aos direitos e à justiça Ruth foi uma das responsáveis por iniciar um processo que modificou as leis para as mulheres em todo o mundo.

E para lembrar e celebrar a vida desta grande mulher, trazemos a crítica de Suprema (no título original On The Basis Of Sex), que narra a sua batalha até vencer o primeiro grande processo sobre o tema na Suprema Corte dos Estados Unidos. Uma vitória que mudou o olhar para o trabalho entre os gêneros.

Filha de imigrantes judeus russos, Ruth Bader Ginsburg foi uma das primeiras mulheres a integrar a Suprema Corte Americana e se tornou um grande símbolo pela igualdade. Mas o contexto em que ela cresceu fez dela um ser humano anacrônico, uma grande ativista que muito falava para quem parecia não conseguir absorver.

Esse anacronismo está refletido durante todo o longa, onde já na primeira aparição de Ruth, interpretada por Felicity Jones, ela surge rodeada por homens em sua primeira aula no curso de direito em Harvard. A parte inicial da produção é empenhada em demonstrar, a partir de diversos planos abertos, um mar de homens iguais e padronizados, enquanto a pequena Ruth surge isolada e em uma completa quebra de uma engrenagem do sistema.

A igualdade aqui é o ponto, ou melhor, a desigualdade, portanto, durante cada uma das cenas somos expostos aos pequenos, médios, grandes e absurdos momentos de machismos, sofridos tanto por Ruth, quanto por outras personagens. Contudo, se o gênero impede que uma mulher pratique determinadas ações, de alguma forma, ele também exibe alguns limites para os homens. A trajetória de Ruth e o que é extremamente marcado no longa, é a sua exímia perspicácia ao perceber que ela conseguiria trazer direitos à mulher, se pudesse comprovar que o gênero também era um impeditivo ao homem, e é nesse caso, que é um dos mais ícones da história do direito americano, que Ruth revoluciona a visão sobre os gêneros.

Se por um lado o longa encontra o seu ponto alto no desenrolar desse caso e da perseverança de Ruth, ele desacelera e perde o seu equilíbrio ao apresentar uma protagonista sem muitas nuances e de baixa complexidade. Basicamente, a personagem se resume à essa faceta disruptiva de desconstruir uma ideia vigente sobre o gênero, mas esse fato pouco se apresenta ou se apresenta com o mínimo de complexidade para entendermos melhor quem foi Ruth Ginsburg.

E a salvação da personagem está mesmo na grande atuação de Felicity Jones que não mede esforços para trazer com enorme sutileza uma personagem cativante e marcante. A direção de Mimi Lader não economiza em sempre tê-la como o elemento central, enquanto Felicity carrega toda a construção narrativa a partir de expressões faciais que demonstram muito sem precisar de uma palavra.

Apesar disso, o longa tem o seu valor por tudo aquilo o que representa. Ruth foi capaz de demonstrar à Suprema Côrte Americana, formada exclusivamente por homens, que o sistema era falho e precisava ser revisto. Ruth lutou durante toda a sua vida por direitos como aborto, imigração, igualdade de gênero e casamento igualitário, transformou os Estados Unidos e o mundo. Contudo, a sua morte deixa uma cadeira vazia na Suprema Corte, cabendo ao Presidente Donald Trump a indicação de um novo membro para um juri formado por nove pessoas, das quais duas já foram indicadas por ele.

Um longa como Suprema tem a sua importância simplesmente como um facilitador para contar a história que precisa ser contada. Uma Suprema Corte que por anos foi movida por um sentido igualitário, agora corre o risco de assumir um posicionamento totalitário. Estamos perdendo ícones e líderes por todo o mundo e sendo consumidos por uma onda conservadora.

A história dos Estados Unidos se reflete diretamente e com uma intensidade absurda na América Latina. Precisamos espalhar filmes e história como a de Ruth para que seja possível manter a chama pela democracia e igualdade em todos os aspectos viva. Do contrário, vamos entrar de vez em uma era de retrocessos. E responsabilidade de quem viveu o mínimo de liberdade, lutar por sua manutenção.

Ruth Ginsburg deixa um legado que todos, mas principalmente nós mulheres, temos o dever de reverenciar e mantê-lo vivo. A busca pela paz e pela igualdade é infinita e assim como Ruth, iremos morrer lutando.

Ruth Bader Ginsburg