Crítica | Aggretsuko: a dura realidade de quem precisa trabalhar para pagar os boletos

Aggretsuko não chama muita atenção quando apresentada na primeira página da Netflix, mas acredite, você não irá se arrepender ao dar uma chance ao primeiro episódio da série que, em três minutos, te conquista com as maiores verdades sobre o mundo do trabalho que todos nós já conhecemos e odiamos, por isso, é impossível não se solidarizar e se identificar minimamente com a personagem principal.

“Retsuko, escorpiana, 25 anos, solteira, sangue tipo A”, assim se define a panda vermelha, protagonista um tanto quanto incomum do anime da mesma criadora da Hello Kitty, uma definição muito comum hoje em dia na internet, mas que na realidade não define nada. Retsuko é uma jovem aparentemente certinha que trabalha no setor de contabilidade de uma grande empresa, sofrendo com os mandos e desmandos de seus superiores, para colocar o estresse para fora, a jovem carrega um microfone onde solta a voz rasgada em um poderoso e assustador gutural de death metal.

A comicidade do exagero cantado por Retsuko, de fato, representa tudo aquilo o que nós queremos dizer aos chefes exploradores, aos encarregados bajuladores e aos cínicos colegas de trabalho. A protagonista sofre todo o tipo de abuso recorrente no mundo corporativo, desde as horas extras de trabalho não remuneradas, o salário baixo, passando pelo abuso de poder de seus superiores e chegando no clássico machismo que impera contra mulheres no meio executivo. E por que Retsuko aceita e convive com isso tudo? Porque ela precisa pagar o aluguel, a comida e os famosos boletos.

A série aborda temáticas pesadas de maneira leve, mas sem deixar de causar aquele nervoso e uma certa raiva no público. Os primeiros minutos do primeiro episódio exploram a protagonista que, por um descuido, sai de casa para o trabalho de crocs e entra em desespero por conta do que as outras vão pensar. Em dez episódios com duração de quinze minutos cada, Retsuko exibe as ansiedades, o medo, o pânico, o estresse e o desespero causado por um ambiente de trabalho nocivo, que transforma problemas triviais em bolas de neves esmagadoras que, muitas vezes, se tornam traumas.

Imagem divulgação – Aggretsuko

Toda a produção é construída em cima de estereótipos que, infelizmente, sabemos ser comuns em qualquer empresa e círculo social: o chefe machista representado por um porco; a supervisora abusiva em forma de cobra; a hipopótamo que cria boatos; um suricate puxa-saco; uma amiga que vive a vida viajando sem responsabilidades, curiosamente representada por uma gata. Por outro lado, Retsuko vive a admirar duas mulheres que passam pelos corredores com um ar de superioridade, para a panda, elas sim sabem como se portar em um ambiente de trabalho, mas a verdade é que as duas possuem preocupações muito próximas do que a protagonista furiosa sente.

No entanto, a parte que mais chama a atenção na série, são realmente os momentos em que Retsuko solta a voz e explode em um death metal sanguinário. As letras cantadas pela panda, mais a mudança do super fofo para a fúria mortífera, são sempre hilárias. No conjunto da obra, Aggretsuko é o triste retrato das relações de trabalho em qualquer setor da sociedade, mas exerce muito bem a função de ironizar esse complexo cotidiano com poderosas explosões de fúria em meio a uma construção que explode em fofura. Mas não espere de Aggretsuko momentos profundos e uma narrativa filosófica, o único objetivo da série é realmente jogar na nossa cara a realidade vida de uma mulher trabalhadora e ao que somos obrigados a nos sujeitar em trocar dos boletos pagos.

FICHA TÉCNICA:

  • Aggretsuko – Temporada 1
  • Criação: Rareko
  • Elenco: Kaolip, Komegumi Koiwasaki, Maki Tsuruta