Crítica | Alias Grace: uma realidade passada marcada pelo presente

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Imagem divulgação – Alias Grace

Quando assistimos Alias Grace, série da CBC distribuída mundialmente pela Netflix, automaticamente fazemos a ligação com a que certamente foi a série do ano, com comprovação pelo Emmy de melhor série dramática, The Handmaids Tale. Apesar das diferenças básicas entre elas, como o fato de uma realizar uma construção em cima de fatos reais ocorridos no século XIX e a outra idealizar uma assustadora distopia, as semelhanças são chocantes. Percebemos em The Handmaid’s Tale um reflexo ampliado de uma sociedade não tão distante assim, onde Alias Grace está ambientada. Visualizamos, através da arte – primeiro através dos livros homônimos que dão nome às séries, depois pelo produto audiovisual – a situação humilhante e degradante em que mulheres vivem desde o início dos tempos.

Alias Grace não possui a mesma grandiosidade de recursos visuais presentes em The Handmaid’s Tale, mas assim como na adaptação vencedora do Emmy, possui uma atriz principal dona de uma atuação excepcional. Sarah Gadon vive uma Grace Marks enigmática, que transita pela jovem amedrontada em ingênua que chega ao Canadá e pela mulher dura, marcada por uma história trágica permeada por uma série de abusos. Grace se mostra desde o início como uma personagem que não irá ceder aos desejos de respostas da sociedade, para isso ela realiza um jogo muito sutil que, ao mesmo tempo que nos aproxima, nos afasta, indo da mais pura simplicidade ao hipnotizante cinismo crítico.

O roteiro de Sarah Polley, que durante anos tentou realizar uma adaptação seriada do livro de Margaret Atwood, é o aporte necessário e primoroso para a brilhante atuação de Gadon. Os saltos temporais são feitos de maneira a enriquecer a narrativa de Grace, além de apresentar personagens tão enigmáticos quanto ela, reforçando o magnetismo presente em um desenvolvimento que se constrói com o único objetivo de confundir. Grace é um típico personagem não confiável e não por sua culpa, mas por refletir uma sociedade na qual mulher nenhuma pode confiar. Grace é o espectro vivo do ceticismo que vivemos hoje no século XXI.

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Imagem divulgação – Alias Grace

No caminhar dos episódios temos uma Grace que quase não modifica o seu tom de voz, implicando em uma calmaria perturbadora. A atmosfera pesada das sensações e o caráter conservador que está em constante briga para não render-se ao que provém das ideias de liberdade, mas que em ambas as vertentes diminuem mulheres ao objeto sexual ou ao objeto ornamental. Seja conservador ou liberal, homens estarão unidos quando o assunto é o corpo feminino.

Alias Grace é mais uma obra estupenda escrita e adaptada por mulheres, a qualidade da obra é inegável, todavia é também inegável a tristeza que produções como essa geram em momentos onde, no Brasil, dezoito homens sentem-se no direito de decidir pelo corpo de mulheres que sofrem o estupro. Alias Grace está localizada na era vitoriana canadense, porém em 2017 os mandos e desmandos sobre a liberdade feminina continuam e a violência e o assédio são notícias constantes em todos os níveis sociais.

A trama não está nem um pouco preocupada em responder de maneira prática se Grace Marks foi ou não responsável por um duplo homicídio, mas em demonstrar uma corrente de acontecimentos que funcionam para questionar se realmente seria possível culpar a personagem por qualquer crime que fosse.

Se o caráter da obra literária de Atwood é ou não feminista, assim como a adaptação de Polley, não cabe aqui discutir, o que deve ser discutido é que a arte, por mais criativa que seja, sempre trabalha em correspondência com a sociedade. Sendo assim, não é necessário dizer que muito precisa mudar. Enquanto Graces resistirem, a (r)evolução humana ainda será possível.

FICHA TÉCNICA

  • Direção: Mary Harron
  • Roteiro: Sarah Polley (do romance Alias Grace, de Margaret Atwood)
  • Elenco: Sarah Gadon, Edward Holcroft, Rebecca Liddiard, Zachary Levi, Kerr Logan, David Cronenberg, Anna Paquin, Paul Gross, Martha Burns, Will Bowes, Sarah Manninen, Stephen Joffe, Michael Therriault

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