Crítica | Chernobyl: uma obra prima que não deveria existir

Na noite de 26 de abril de 1986, o mundo mudou para sempre. Mais uma vez a humanidade foi capaz de mudar drasticamente o rumo natural do planeta, em mais uma de suas buscas por se igualar a arquitetura do universo. Nessa noite, o mundo conheceu o maior acidente nuclear da história, uma gigantesca e destruidora bola de neve de acontecimentos que poderiam ter destruído toda a Europa e tornado boa parte do mundo inabitável por milhares de anos. Um “acidente” que contou com os seus famosos heróis e vilões, mas nada disso importa diante de seus resultados catastróficos, porque em meio a catástrofes – ou na iminência dela – heróis e vilões desaparecem e resta somente aquilo o que somos em nossa natureza mais pura: animais instintivos em busca de sobrevivência.

Chernobyl, série da HBO que retrata os acontecimentos da explosão do reator RBMK, supostamente o mais seguro do planeta, expõe com uma precisão dolorosa a velha máxima de que os fins justificam os meios, razão pela qual a humanidade vem destruindo-se dia após dia em desastres que acumulam-se na lixeira da história, uma história que a todo custo todos os culpados, comumente conhecidos como vencedores, fazem questão de esquecer.

Conhecida por sua incrível capacidade de produzir séries de altíssima qualidade, após o fiasco da última temporada de Game of Thrones, a HBO lança a minissérie Chernobyl sem muito alarde e, de repente, é a dona da maior nota de séries do IMDb, ultrapassando a própria Game of Thrones e Breaking Bad. No quesito qualidade técnica não há mesmo o que discutir, Chernobyl é implacável em recriar os anos 80 da União Soviética, os tons pastéis, as caixas de arquivo, os ternos quase sempre cinza ou marrom representam a tonalidade e vibratilidade perfeita para o pano de fundo da tragédia.

O elenco principal formado por Jared Harris (Valery Legasov), Stellan Skarsgård (Boris Shcherbina) e Emily Watson (Ulana Khomyuk) possuem uma atuação extremamente humana, a sensibilidade para tal é tamanha, que é impossível não sentir a tensão, a dor, a dúvida, o medo e a confusão que existem dentro de cada um deles. Jared Harris, que tanto já participou de ficções científicas por aí, agora se vê no papel do cientista responsável por controlar aquilo o que milhares de mortos gostariam que tivesse sido apenas ficção. Sua atuação é gigante, o personagem vive em uma linha tênue entre o altruísmo e a mediocridade, e isso é de uma grandiosa beleza.

A direção realiza muito bem o seu papel, conduzindo cada um dos cinco episódios, completamente diferentes entre si, de forma que o espectador está sempre dentro de cada um dos mais terríveis momentos, desde o acidente até o momento em que o caos é controlado, se é que podemos dizer que foi controlado. Em cada um dos personagens escolhidos a dedo para transitar entre as câmeras em cada um dos momentos, somos levados da extrema tensão à uma tristeza profunda. Chernobyl entregou uma das mais belas cenas de um funeral da história e não foi preciso que ninguém emitisse um único som.

A maquiagem impressiona e faz questão de tornar o mais real possível o efeito da radiação em um corpo humano. Mas mesmo nesse momento, onde a série poderia apelar para um sensacionalismo barato, Chernobyl nos leva a pensar novamente na dualidade que nos move, em meio à uma tragédia anunciada, onde homens são movidos somente pelo próprio ego e orgulho, permanecem partículas de amor e bondade que resistem até o fim. Junto disso, a trilha sonora da música Hildur Guðnadóttir acompanha todos os acontecimentos em uma calma que grita poderosos pedidos de socorro.

Ao contrário do que o Partido Comunista Russo possa pensar, a série Chernobyl não é um ataque gratuito ao governo soviético, mesmo que esse tenha sido o intuito. Chernobyl, tanto a série quanto o acidente nuclear, representam somente o que a humanidade vem fazendo desde que brotou neste planeta. É possível culpar o contexto da guerra fria, é possível culpar a corrida nuclear e afirmar que a União Soviética foi negligente por esse motivo, no entanto, fomos negligentes ao atacar gratuitamente e destruir Hiroshima e Nagasaki, fomos negligentes ao deixar que Hitler assumisse o poder, fomos negligentes ao tornar o assassinato de Franz Ferdinand em uma grande guerra, fomos negligentes ao colonizar e empobrecer ao extremo grande parte do continente africano, fomos negligentes ao cometer o genocídio nas Américas e assim por diante, a lista é infinita. Mas a questão a qual realmente devemos nos debruçar é: até quando a história chamará as desgraças humanas de negligência?

Craig Mazin e sua série sobre um acidente anunciado que pode ter matado mais de 90 mil pessoas entra para o hall das melhores séries da década, talvez da história e por uma trágica ironia do destino, seria melhor que essa obra prima nunca tivesse tido uma inspiração real para existir.

FICHA TÉCNICA:

  • Nome: Chernobyl
  • Direção: Johan Renck
  • Roteiro: Craig Mazin
  • Elenco: Jared Harris, Stellan Skarsgård, Emily Watson, Paul Ritter, Jessie Buckley, Adam Nagaitis, Con O’Neill, Adrian Rawlins, Sam Troughton, Robert Emms, David Dencik, Mark Lewis Jones, Alan Williams, Alex Ferns, Ralph Ineson, Barry Keoghan, Fares Fares, Michael McElhatton