Crítica | Devs: o incontrolável controle do livre-arbítrio

O que você faria se descobrisse que toda a sua vida está pré-determinada? Que não importa o quanto mude a sua trajetória, na verdade, o seu caminho estava traçado desde o início?

Devs, a série da FX, de Alex Garland (Ex-Machina e Aniquilação), traz um suspense em ficção científica surpreendente, para dizer o mínimo, e aponta uma visão sobre o tempo bastante intrigante.

Não, Devs não trabalha a viagem no tempo, mas sim a linha temporal, ou melhor, as linhas temporais, e os acontecimentos presentes dentro delas. Um emaranhado de redes que se conectam e se separam, e que independente do que façamos não há qualquer controle sobre isso.

A trama acompanha Lily Chan, uma mulher que trabalha em uma empresa de tecnologia chamada Amaya, cujo o namorado, que trabalha na mesma empresa, desaparece e a partir daí a vida de Lily passa a ser afetada por uma série de acontecimentos incontroláveis, que de alguma maneira estão conectados a Forest, visionário dono da empresa em que a jovem trabalha, e Katie, seu braço direito.

Ao início, ao que parece, estamos diante de um suspense psicológico com grandioso ar noir, mas a trilha sonora está ali a todo momento para demonstrar que o que está diante de nossos olhos não é um simples suspense. É algo muito maior, algo que envolve a física do tempo, a razão da vida em si.

Não queremos aqui entrar no ramo da física quântica ao ponto de tentar explicar as teorias abordadas na série, acreditamos que você deva conferir por si mesmo. Mas certamente, estamos aqui para te deixar com a dúvida que poderá ou não fazer com que você se interesse por Devs.

A partir do terceiro episódio, estamos diante de um verdadeiro efeito dominó, um assoprar de um castelo de cartas. É aí que se encontra a beleza e a absurda inteligência da série de Garland. Diante de um suposto futuro determinado, ele é capaz de construir uma série de acontecimentos imprevisíveis, mas que de qualquer maneira, levam a acontecimentos inevitáveis.

Em um ritmo lento que paradoxalmente é capaz de tirar o fôlego, Devs nos leva a refletir sobre o passado, o presente e o futuro. Onde o não saber, realmente é muito melhor do que o saber. Encarar a teoria de que estamos fadados a uma única possibilidade é cruel, mas também pode ser libertador. Como batalhar por uma conquista, sabendo que caso ela não venha, não era literalmente, cientificamente e quanticamente para ser. O caminho não é esse.

Contudo, enxergar a vida de maneira tão pragmática, onde absolutamente nada acontece sem uma razão ou aleatoriamente pode nos conduzir a um caminho complexo. Um caminho sem qualquer livre-arbítrio, onde todos os nossos passos, falas, movimentos e condições são o que são e o serão, e ponto. Como uma casta indiana ainda mais imóvel.

E aportando ainda em outras teorias, se aqui estamos fadados a uma espécie de sofrimento pelo resto da vida, um outro nós está fadado a ter uma boa vida em uma outra dimensão. Se aqui você perdeu o amor da sua vida, é possível que ele ainda esteja ao seu lado em outro mundo e assim por diante em tantos outros mundos formados por decisões que não tomamos.

E ao final, Devs nos deixa com todas essas reflexões, mas com uma única certeza: esqueça onde você poderia estar ou que poderia estar fazendo caso tivesse tomado essa ou aquela decisão. Viva o agora. Viva a realidade que tem e lute por ela. Parece simples depois de tantas reflexões profundas. Mas nada é mais profundo do que a certeza de que nessa existência você fez o possível para ser quem você realmente é.

Devs nos aponta a todo momento o determinismo de nossas vidas, a completa ausência de livre-arbítrio, ao mesmo tempo que nos apresenta uma realidade generosa. Uma resposta com fé naquilo o que somos, em nossa essência que, mesmo dividida em tantas realidades, jamais poderá ser desfeita. Porque o que somos, somos, seja por determinismo ou por uma vontade da alma, e contamos com a força para continuarmos sendo.

Agora, a escolha de assistir essa maravilhosa obra prima da ficção científica, uma das mais brilhantes feitas nos últimos tempos, é sua. Ou não. Quem é que realmente sabe?