Crítica | Erased: é possível aprender com o passado?

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Imagem divulgação – Erased

Boku dake ga Inai Machi, um mangá conhecido como Erased ou A Cidade Sem Mim, criado por Kei Sanbe e publicado entre 2012 e 2016, com uma versão já em anime, ganhou, pela Netflix, uma adaptação em live-action em uma série de doze episódios. Diferente de Death Note, onde o serviço de streaming optou por uma produção estadunidense para a adaptação, dessa vez, a obra vem direto do Japão com direito aos traços característicos daquele país.

Vale frisar que não assistimos ao anime e também não fizemos a leitura do mangá, portanto, nessa crítica não existem comparações. Erased retrata no ano de 2006, a história de Satoru (Yûki Furukawa), um rapaz que sonha em escrever o seu próprio mangá de sucesso e que em geral vive uma vida sozinha e pacata, exceto por um motivo: Satoru possui um dom – ou uma maldição – que o leva para um passado próximo, alguns minutos antes do presente, para que ele modifique algo de ruim que está prestes a acontecer. A esse fenômeno, o qual ele consegue lidar sem maiores problemas, ele dá o nome de “revivescência”, até que um evento trágico ocorre em sua vida e ele é lançado de volta ao de 1988.

O ponto que mais chama a atenção em Erased é a forma como a viagem no tempo é abordada. O gênero vem se repetindo constantemente e, de certa forma, tornando-se um grande clichê da ficção científica. Assim, séries como Dark trazem o tema, mas inovam no formato da viagem. Dark criou um conceito de ciclos, enquanto Erased consegue se afastar ainda mais da lógica batida e basicamente não possui conceitos, Satoru ao retornar no tempo, simplesmente retorna, exatamente em uma situação onde ele revive o momento. Erased abre mão completamente de paradoxos e duplicatas e recria as linhas do tempo sem complicações, mas sendo esse, ainda, o ponto chave para a construção de toda a narrativa.

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Imagem divulgação – Erased

Em Hokkaido, pequena cidade cercada por grandes chaminés e coberta por neve, a série mostra um Japão diferente daquele das grandes luzes e telões de Tókio, na verdade é exatamente o oposto. Com uma fotografia que une a fumaça – provavelmente poluente – das chaminés ao céu do amanhecer e do crepúsculo, em uma imagem poética, Erased vai conquistando o espectador com belíssimas cores que oscilam entre os tons brilhantes e luzes sutis que hipnotizam e também com traços simples de uma cultura que soa estranha aos olhos ocidentais. O diretor Ten Shimoyama conduz junto a essa explosão visual, um elenco que se sustenta, principalmente com relação as crianças responsáveis por grande parte da trama e por papeis maduros.

Partindo deste ponto, a série se apega no que ela tem de mais intenso: a importância dos relacionamentos afetivos e como esse fator pode mover as ações de pessoas, tanto para o bem, quanto para o mal. Mesmo que a primeira vista a abordagem da amizade e da família possa parecer uma grande bola de clichê, a produção apresenta essas relações com uma sensibilidade e beleza comoventes e personagens extremamente cativantes. Erased é sobre mudanças e, não somente pelo fato de modificar o presente através do passado, mas de mudanças de perspectiva através de laços que se criam com simplicidade.

O ritmo fluido de episódios com apenas trinta minutos funcionam perfeitamente para aqueles que gostam de transformar séries em filmes gigantes e assistir tudo de uma vez, mas também vale ressaltar que a narrativa avança em um contínuo show de reviravoltas ao fim de cada episódio. O roteiro foi criado na medida para que não sobrasse ou faltasse nada, assim como não existem excessos de mistérios ou conflitos.

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Imagem divulgação – Erased

Todavia, como toda boa produção japonesa, se Erased está isenta dos excessos narrativos, ela não escapa do excesso dramático, porém, esse é um traço que não pode e nem deve ser criticado, afinal, é uma característica marcante do teatro japonês há milênios que se perpetua na televisão e no cinema do país, mas é importante que se tenha isso em mente quando começar a assistir. Portanto, mesmo apresentando uma série de resoluções mirabolantes e gloriosas, não é nada que consiga afetar o desenvolvimento ou a qualidade da produção.

Em um período onde crianças retornam com tudo para os filmes e as séries, a produção da Netflix acerta e está repleta de mensagens inspiradoras que reafirmam o valor da amizade e do amor. A série provoca questionamentos sobre as escolhas que fazemos, a força que possuímos e que acaba sendo suprimida pela sociedade, assim como sobre a capacidade que cada ser humano tem de evoluir através das suas próprias falhas. Afinal, o olhar para o passado só é algo bom se o objetivo for tentar ser melhor no presente.

FICHA TÉCNICA:

  • Erased (Bokudake ga Inai Machi)
  • Direção: Ten Shimoyama
  • Roteiro: Kei Sanbe
  • Elenco: Yûki Furukawa, Tomoka Kurotani, Reo Uchikawa, RiRia, Shigeyuki Totsugi, Jyo Kairi, Rinka Kakihara, Mio Yûki, Hidekazu Mashima, Noriko Eguchi, Jin Shirasu, Hiroki Konno, Ayako Yoshitani, Junwichi Mogy

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