Crítica | Gentleman Jack: conhecida como a primeira lésbica moderna, Anne Lister desafiou a Inglaterra

Ultimamente andamos extremamente decepcionadas com o mundo de maneira geral, mas se tem uma coisa que mantém a nossa fé em algum tipo de mudança, essa coisa é essa maravilha chamada audiovisual. Já há alguns anos, as televisões ao redor do globo caminham na contramão do levante conservador e nos mostram a realidade e a diversidade existente nesse planeta. A palavra representatividade soa como música aos nossos ouvidos e os nossos olhos e corações se enchem de esperança com o termo sendo colocado, mesmo que ainda de maneira tímida, em prática.

Gentleman Jack, série realizada através de uma parceria entre BBC e HBO, duas gigantes e conhecidas por suas brilhantes produções, é um exemplo do que a palavra representatividade significa, e a série nos leva até muito tempo atrás para provar isso.

Criada por Sally Wainwright, baseada no trabalho que a biógrafa Jill Liddington executou através dos diários da própria Anne Lister, onde ela escreveu mais de quatro milhões de palavras, a série narra parte de sua história, um verdadeiro ícone – que provavelmente você não conhecia – que revolucionou a sua época, atuando completamente fora dos papéis reservados ao seu gênero, sendo uma mulher que viajava por toda a Europa sozinha, comandava as suas terras e vivia sem qualquer medo de ser quem ela realmente era, uma mulher lésbica em pleno século XVIII.

Na série, Anne, maravilhosamente interpretada por Suranne Jones, quebra a quarta parede e assume o total controle de sua história, em uma sacada genial do roteiro de colocar não somente a personagem no comando, mas de colocar uma mulher, uma mulher lésbica tomando as rédeas de sua própria vida. O foco em sua relação com Ann Walker, torna a trama muito mais profunda e cativante, deixando desde o início evidente que Gentleman Jack não se trata apenas de um drama de época com os típicos dramas da época.

A primeira temporada chegou ao fim na última semana, com uma segunda temporada confirmada antes disso e as aclamações e críticas positivas chegam e com toda a razão. Com um roteiro sarcástico na medida certa e com reflexões altamente pertinentes, o primeiro ano da série é primordial ao tratar o desejo, a sexualidade e o desempenho social do sexo feminino, utilizando Anne, mesmo que também agredida pela crueldade da época, como um exemplo de empoderamento, e Ann, vivida por Sophie Rundle, como uma pessoa que foi sendo destruída dia após dia por estar no corpo de uma mulher, mesmo com todos os privilégios possíveis, desenvolvendo uma série de doenças mentais.

Nesse contexto, a série coloca duas mulheres em situações absolutamente opostas, mas que vivem o mesmo dilema de não conseguirem encaixar-se. Somos levadas a criar um elo de empatia com as duas personagens, Anne, ao quebrar a quarta parede comunica-se diretamente conosco, entendemos perfeitamente o que ela quer dizer, mesmo quando não diz. Por outro lado, Ann começa a ser atormentada pela descoberta de sua sexualidade, sua mente a consome incessantemente. Se por um lado a trama nos convoca a levantarmos a cabeça e nos empoderarmos como Anne, de outro, sabemos que vivemos, apesar de tentarmos esconder, um pouco como Ann, atormentada por familiares, vizinhos, obrigações e pressões sociais, o enforcamento é uma excelente metáfora para o ser mulher e lésbica.

A partir daí ganhamos um terceiro ponto que termina por desenvolver um dos melhores relacionamentos da televisão nos últimos anos. Algo que seria impossível sem a incrível confiança demonstrada entre as atrizes em cena, confiança uma na outra, confiança nelas mesmas e, o principal, em suas personagens. A representatividade alcança o seu ápice e um altíssimo grau de empatia com o público, quando duas personagens mulheres nessas situações se encontram.

A direção capta todos esses momentos, além das inúmeras peripécias de Anne Lister durante a temporada, com extrema lucidez, sem se deixar cair na armadilha de estereotipar a personagem feminina. A fotografia sóbria demonstra os ares de estigmatização da era vitoriana, ainda mais fortes nas terras do campo, onde Anne e Ann viviam. Uma época onde homens eram enforcados por sua sexualidade, já as mulheres nem eram lembradas como seres capazes de possuir uma sexualidade. Em todos esses aspectos, a criação de Sally Wainwright é também impecável.

Já renovada para a segunda temporada e com um ano encerrado com um final que surpreende, Gentleman Jack exibe um tremendo cuidado ao desenvolver os seus personagens, incluindo a família de Anne, que a acolhe de forma excepcional. É difícil não se emocionar em cada um dos oito episódios construídos milimetricamente para o êxito dessa temporada. Agora, só nos resta esperar que para o próximo ano, as páginas dos diários de Anne Lister continuem sendo traduzidas com ainda mais beleza para a tela.