Crítica | Ghoul – Trama Demoníaca

Construir uma série de terror não é uma tarefa fácil, afinal de contas, se em um filme de cerca de uma hora e quarenta minutos já é complicado manter a tensão, o mistério, o suspense e o terror. Essa tarefa torna-se ainda mais difícil quando se pensa em um número estendido de episódios, o que faz de muitas séries do gênero uma sucessão de acontecimentos massantes que enveredam muito mais para o drama, do que para o terror. Esse, felizmente, não é o caso da série indiana original Netflix, Ghoul.

A produção indiana, mas escrita por um britânico, não se preocupa em se encaixar em uma das duas grandes frentes do terror atual – a cult, que exige uma certa reflexão por parte do público; e a farofa, que joga no campo dos blockbusters pesados com tiro, porrada e bomba, ou grito, sangue e desespero – na verdade, ela caminha com êxito entre as duas.

O enredo é ambientado em uma Índia totalitária e acompanha uma interrogadora que, quando levada para uma instalação para interrogar um dos maiores líderes contrários ao governo, percebe que existe algo de muito errado com ele e com a instalação. Um dos pontos chaves da trama está no fato de que nela não veremos os espíritos e demônios maléficos que habitam Hollywood. O que move o terror em Ghoul é uma história do folclore e da cultura árabe. Algo que além de aterrorizante, é também um interessante quebra-cabeça.

Mas não se engane, Ghoul não foi uma produção capaz de gerar medo por várias horas (ou episódios), a série é, ao menos no modelo de exibição da Netflix, um filme dividido em três partes que, juntas, somam mais ou menos duas horas, ou seja, o tempo de um filme. Uma ideia muito inteligente dos produtores e criadores, tendo em vista que as séries atualmente – principalmente as originais Netflix – são um chamariz muito mais forte do que os filmes.

Imagem divulgação – Ghoul (Netflix)

Em três episódios, que podem ser divididos nitidamente como início, meio e fim, Ghoul consegue manter, mais do que a tensão, uma expectativa do público. A expectativa em obras de terror caminham lado a lado da tensão, afinal, a tensão pela tensão torna-se irritação se passamos a concluir que a produção está nos enrolando para ganhar tempo. Um exemplo disso são filmes que distribuem sustos desnecessários ao longo da trama, para resolver toda a narrativa nos quinze minutos finais. Para a alegria geral (ou horror geral), Ghoul consegue transmitir no primeiro episódio o sentimento de uma terra arrasada, onde nada mais pode florir, isso gera a expectativa de uma série de desgraças iminentes e é exatamente o que ocorre nos episódios seguintes. Para aqueles e aquelas que gostam do gênero, é realmente satisfatório.

O roteiro consegue dar a atenção necessária ao todo da narrativa, assim como, dentro das possibilidades do tempo, é capaz de aprofundar os personagens e dar-lhes histórias de vida interessantes e desfechos condizentes com elas. Alguns furos podem ser percebidos durante o caminho, mas nada que prejudique o conjunto final. Vale frisar também que o folclore retratado na obra não traz a “assombração” enquanto uma vilã, em Ghoul, toda a responsabilidade é humana e cada um é resultado de suas próprias escolhas.

Com bastante sangue jorrando, a direção não possui qualquer receio de demonstrar que bebe na fonte de filmes dos anos 2000, como REC e O Albergue, ao mesmo tempo que pende para uma linha meio Alien – O Oitavo Passageiro. O cenário, reduzido praticamente ao espaço da instalação do governo foi uma excelente saída para o nítido baixo orçamento, assim como o uso de pouca luz. A fotografia exerce um excelente trabalho com tons vermelhos, marrons e verdes, em um jogo de luzes macabro.

Ao longo dos três episódios, Ghoul consegue alcançar o seu objetivo. Sem errar na mão e exagerar em momentos inoportunos, Ghoul não se preocupa em inovar e também não acredita que está inventando a roda ao propor uma temática relativamente nova, dentro desses aspectos, a produção é uma boa escolha para quem procura por uma trama sinistra e sangrenta, com um fundo minimamente reflexivo.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: Ghoul, 2018
  • Criador: Patrick Graham
  • Direção: Patrick Graham
  • Elenco: Radhika Apte, Manav Kaul, Rohit Pathak, Mahesh Balraj, Ratnabali Bhattacharjee