Crítica | Jojo Rabbit: o uso da comédia para produzir críticas sociais

A Segunda Guerra Mundial permeia e permeará por muito o imaginário do cinema ao redor do mundo. Com uma infinidade de histórias e possibilidades a serem apresentadas, cineastas trazem ano após ano um novo olhar sobre o tema, novos olhares que, em geral, figuram nas principais premiações do cinema.

Na temporada 2019/20, além do representante da Primeira Guerra Mundial, 1917, do diretor Sam Mendes, tivemos também a comédia memorável Jojo Rabbit, de Taika Waitiki, localizada na segunda guerra, que acabou vencendo o Oscar de melhor roteiro adaptado e, sem dúvida, mais do que merecido.

Jojo Rabbit narra a história de um menino de dez anos, que vive em uma pequena cidade da Alemanha durante a guerra e tem Hitler como amigo imaginário. Jojo é uma criança fanática pelo nazismo, mas que desconhece quase que absolutamente os horrores da guerra. E é nesse aspecto que se encontra a beleza de Taika ao produzir uma história leve e que ao mesmo tempo é capaz de debater, para usar somente uma palavra, o absurdo criado por Hitler.

Absurdo, por sinal, é a palavra de ordem aqui. Do início ao fim da obra, o diretor, roteirista e também ator coadjuvante, cria uma Alemanha de fanatismos, fake news, política barata e supremacia baseada em discursos insustentáveis, mas que por uma histeria coletiva, sustentaram uma guerra inteira.

A narrativa cava as suas bases para descrever essa ideia em uma estratégia de contraponto entre os coadjuvantes: de um lado uma versão altamente caricata de Hitler, interpretado por Waitiki, que vive dentro da cabeça de Jojo, ou seja, uma criatura terrível, mas inventada por uma criança inocente, ou seja, não tão horrível assim; do outro, temos a mãe de Jojo, vivida por Scarlett Johansson em uma atuação incrível, que traz a voz de resistência contra a guerra, mas que de maneira nenhuma julga ou entra em desentendimentos com o filho por conta de seu posicionamento político, sempre usando de muito bom humor para tentar alertá-lo sobre o quão absurda e desnecessária é a guerra.

Dentro desse contexto, Waitiki nos mostra nitidamente a ideia de que a política deve sim ser discutida e ideais de igualdade e bondade disseminados, mas isso só irá acontecer através do diálogo e uma boa mínima convivência. Contudo, é claro que o diretor não deixaria de colocar o olhar da minoria atingida e que nem sempre consegue garantir a paciência necessária para manter o diálogo. E é aí que entra a personagem de Elsa, jovem judia com a qual Jojo é obrigado a conviver, e que, com toda a razão, detesta o nazismo e qualquer nazista, mas que mesmo assim consegue enxergar salvação para o menino.

O longa conta com a aceleração e ritmo necessário para manter a primeira parte envolvente o suficiente, para que seja possível desacelerar do meio para o final, em uma trama que mesmo sarcástica, transmite a atmosfera de sofrimento necessário para que Jojo se torne um personagem completo, transformando-se do início ao fim. E para completar, ainda somos agraciados com uma bela trilha sonora, que se encerra ao som de Heroes, de David Bowie.

Jojo Rabbit mereceu o destaque recebido na última temporada de prêmios, mereceu o seu Oscar e todas as demais indicações. Um longa que brinca com a tristeza, mas que não deixa de lado as críticas sociais. Jojo Rabbit preza pelo humano e pela capacidade de acreditar que a humanidade ainda tem salvação.

Ficha Técnica:

  • Direção: Taika Waitiki
  • Roteiro: Taika Waitiki
  • Música: Michael Giacchino
  • Fotografia: Mihai Malamaire Jr
  • Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Scarlett Johansson, Taika Waititi, Sam Rockwell.