Crítica | Killing Eve – Temporada 1: uma série policial como você nunca viu antes

A trama de Killing Eve acompanha uma assassina profissional, Villanelle (Jodie Comer) que executa os seus trabalhos de uma maneira bem peculiar e precisa. Villanelle, apesar do trabalho não convencional, possui uma elegância ímpar em seus afazeres, mesclando uma atuação teatral com requintes de crueldade diferentes para cada um de seus alvos. A direção, a trilha sonora e a fotografia são impecáveis em todos esses momentos, em todas as aparições da assassina, em cada um dos cenários, uma nova atmosfera é criada.

Do outro lado do enredo, mas de forma nenhuma distante, está Eve, contratada por uma divisão oculta do MI5 para investigar e encontrar Villanelle. E é exatamente neste ponto que a série ganha toda a sua força e a sua renovação para a segunda temporada, antes mesmo de ter estreado. A trama possui vários personagens masculinos marcantes, aliás, a narrativa não cria qualquer personagem ruim ou descartável, mas o destaque é exclusivo das mulheres, partindo das protagonistas para aquela que menos apareceu, todas elas ganham profundidade e é possível enxergar para além dos já comuns papeis estereotipados dados às mulheres: a assassina sensual, a policial durona, a jovem sofrida, a esposa incompreendida e por aí vai.

Em Killing Eve mulheres não podem ser descritas pelo famoso jargão “mulheres fortes”, elas são mulheres e ponto, com suas qualidades, defeitos, falhas, loucuras, sentimentos, pontos fortes e fracos, enfim, seres humanos com características humanas que, à propósito, foram brilhantemente representadas.

A série exibe também um excelente roteiro que se desenvolve episódio a episódio, em uma crescente de acontecimentos que transformam os personagens das maneiras mais absurdas possíveis, mas com uma extrema naturalidade. Ao início, existe um suspense dentro da investigação em busca de algo desconhecido, algo que nenhum dos personagens – bons e maus – sabem exatamente o que é. À medida que trama se desenrola, esse desconhecido permanece, mas deixa de ser o foco. A partir daí, somos arremessados para dentro das confusas relações pessoais, responsáveis por revelar muito sobre cada um deles, especialmente delas, mas nada sobre o grande plano.

Imagem divulgação – Killing Eve

Essa suposta ausência de respostas sobre esse desconhecido poderia ser um problema, mas a verdade é que a todo momento, tanto Villanelle, quanto Eve, reforçam a ideia de que pouco importa qual é o real grande problema. O que interessa à elas é apenas a perseguição mútua, a fixação que aos poucos vai se criando e se tornando algo ainda maior. Killing Eve é brilhante por não ter medo de ser diferente, de deixar de lado o manual e criar algo absolutamente novo e deixar o público sempre na expectativa.

Sobre as protagonistas, Jodie Comer é sensacional, uma psicopata genial que merece uma cadeira cativa no hall dos assassinos e assassinas mais fantásticos da história. Mas torcer somente por Villanelle é impossível, quando do outro lado temos Eve, interpretada por uma Sandra Oh absolutamente diferente da Cristina Yang de Grey’s Anatomy, aliás, se não fossem por nove anos na série médica, semelhança nenhuma seria percebida. Carregam a série em um jogo de personalidades confusas que ainda estão por se descobrir, um jogo psicológico tão ambíguo que nos convence que a possibilidade de se sentir obcecado por alguém não é tão absurda.

Killing Eve encerrou a sua temporada com um mar de possibilidades para a segunda – já confirmada -, muitas coisas ainda precisam ser explicadas e, para isso, esperamos por um novo sarcástico banho de sangue, uma assassina ainda mais psicótica e uma agente cada vez mais sem saída e perdida em suas próprias confusões. Em resumo, não sabemos o que esperar, mas esperamos roendo as unhas de ansiedade e com a certeza de que coisa boa vem por aí.

FICHA TÉCNICA:

  • Killing Eve – Temporada 1
  • Criadores: Sally Woodward Gentle, Lee Morris, Phoebe Waller-Bridge
  • Direção: Harry Bradbeer, Jon East, Damon Thomas
  • Roteiro: Phoebe Waller-Bridge, Vicky Jones, George Kay, Rob Williams
  • Elenco: Sandra Oh, Jodie Comer, Fiona Shaw, Owen McDonnell, Kim Bodnia, Kirby Howell-Baptiste, Sean Delaney, Darren Boyd, David Haig, David Bertrand, Ken Nwosu, Sonia Elliman, Olivia Ross, Billy Matthews, David Agranov