Crítica | Lemony Snicket: Desventuras em Série – Segunda temporada

Desventuras em Série trouxe em segundo ano o melhor daquilo que podemos chamar de ironia social. Em uma completa sátira ao “mundo adulto”, os órfãos Baudelaire permanecem em um tortuoso caminho para fugir do Conde Olaf e sua trupe. Baseada na série de livros homônima, que de 1999 a 2006 rendeu nada mais, nada menos, do que 13 livros, a Netflix decidiu dividir a produção em três temporadas, sendo assim, a segunda responde muito bem aos questionamentos da primeira, acrescenta um número considerável de desgraças na vida das crianças e abre o caminho de maneira primorosa para a última temporada.

O segundo ano traz para as telas os livros Inferno no Colégio Interno, O Elevador Ersatz, A Cidade Sinistra dos Corvos, O Hospital Hostil e O Espetáculo Carnívoro. Aqui, os tutores são deixados de lado e os Baudelaires passam a lidar com problemas cada vez maiores e um Conde Olaf ainda mais maligno.

O que não muda nem um pouco é a completa incapacidade dos demais personagens adultos perceberem uma trupe inteira de sequestradores por trás de péssimos disfarces. Fato que pode ser um tanto quanto irritante por alguns momentos, mas que acaba tornand0-se um dos maiores trunfos da série devido ao brilhantismo de Neil Patrick Harris, enquanto Conde Olaf e, principalmente, da melhor surpresa desta temporada, a personagem Esmé Squalor, vivida por Lucy Punch.

Imagem divulgação – Desventuras em Série

Mas o melhor de Desventuras em Série está no completo desprezo pela realidade. A produção não possui o menor vínculo com a verdade, ao mesmo tempo que trata de questões recorrentes na sociedade ocidental com um humor altamente inteligente. Cada um dos livros representados pela produção atua em uma frente crítica, como a péssima educação e o completo desprezo pelas opiniões dos alunos, o campo da moda que dita ao bel prazer o que pode e o que não pode, o lado do ser humano que só é bom quando convém, preferindo queimar pessoas em fogueiras ou dar de comida aos leões e, logicamente, a interminável e insuportável burocracia que se deve enfrentar diariamente para sobreviver tanto na esfera pública, quanto na privada.

Desventuras em Série está muito distante de ser apenas uma série infantil, não sendo surpresa nenhuma agradar ao gosto de adultos, isso ocorre exatamente por destrinchar a sociedade através da sua pior face: um poço de hipocrisia instalado em um gigantesco campo de burocracias, segredos, traições e mentiras, onde os únicos ainda não corrompidos pelo ego, vaidade, soberba e indiferença são as crianças. Não é à toa que Klaus, Violet e Sunny – cada vez mais carismática, diga-se de passagem – são os personagens mais lúcidos, os únicos que conseguem enxergar o mundo através de uma visão holística, balanceando, inclusive, o bem e o mal.

Além dos fatores filosóficos e metafóricos, a segunda temporada veio muito mais carregada. Com um tom sombrio, a fotografia traz novamente os cenários nublados, majoritariamente cinza, com cores que destoam apenas para assinalar a maldade do Conde Olaf. A direção imprime um suspense e uma angústia que ainda não havia sido implementada no primeiro ano e o elenco – como um todo – merece destaque. Apesar das trágicas situações as quais os Baudelaires são submetidos, é quase impossível não se apegar à metade vilanesca da série.

Com um gancho perfeito para deixar o público roendo as unhas até a terceira temporada, Desventuras em Série entregou uma excelente segunda temporada, com tudo aquilo o que era necessário para aumentar a dor e o sofrimento das crianças e também daqueles que assistem, porque como bem lembra Lemony Snicket a todo momento: “é melhor que você não veja.”

Todos os episódios já estão disponíveis na Netflix.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: A Series of Unfortunate Events – 2ª Temporada
  • Criado por: Mark Hudis, Barry Sonnenfeld, baseado nos livros de Lemony Snicket
  • Direção: Barry Sonnenfeld, Bo Welch, Alan Arkush, Loni Peristere
  • Roteiro: Joe Tracz, Daniel Handler, Sigrid Gilmer, Joshua Conkel
  • Elenco: Neil Patrick Harris, Patrick Warburton, Malina Weissman, Louis Hynes, K. Todd Freeman, Presley Smith, Lucy Punch, Dylan Kingwell, Avi Lake, Usman Ally, Matty Cardarople, Cleo King, John DeSantis, Jacqueline Robbins, Joyce Robbins, Sara Canning, Patrick Breen, Sara Rue, Nathan Fillion, Roger Bart, Kitana Turnbull, Malcolm Stewart, BJ Harrison, Barry Sonnenfeld, Tony Hale, Mindy Sterling, Carol Mansell, Ithamar Enriquez, Ken Jenkins, John Bobek, Kerri Kenney-Silver, David Alan Grier, Robbie Amell, Kevin Cahoon, Bonnie Morgan, Allison Williams

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.