Crítica | Mãe!: Darren Aronofsky e a (re)criação

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Imagem divulgação – Mother!

Antes de começar com a crítica propriamente dita, é importante fazer o alerta de  que qualquer informação sobre esse filme é considerada spoiler, nesse caso, sugerimos que o assista primeiro e depois retorne para a leitura. Se mesmo assim preferir realizar a leitura, não se preocupe, Mãe! ainda será capaz de tirar o ar de seus pulmões.

Darren Aronofsky é conhecido e aclamado pelos seus filmes psicóticos capazes de enlouquecer o espectador durante a projeção e que conseguem manter o impacto quando finalmente sobem os créditos finais. Em Mãe! Aronofsky consegue ser ainda mais brilhante, aqui, o que ele nos entrega não é uma produção pronta, mas personagens altamente subjetivos e uma narrativa que não termina quando o filme acaba. Para fazer essa crítica, foi preciso muito mais do que uma análise rápida dos 121 minutos de filme e, ainda assim, essa é somente uma das várias interpretações possíveis.

Mãe! carrega inúmeras metáforas para o mundo como o conhecemos e o mundo que nos foi descrito. Ao começo, temos uma casa em uma clareira envolta por árvores e nada mais, então surgem os personagens, todos eles anônimos: a esposa, vivida por Jennifer Lawrence, o marido, posteriormente chamado de poeta, Javier Barden. A princípio eles parecem ter uma vida normal, mas essa atmosfera logo é quebrada através de simples olhares, mas o pior começa quando um casal desconhecido bate à porta.

A trama utiliza o mesmo casal principal para criar alegorias que permeiam a cultura ocidental e valores morais. “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”, essa é a metáfora principal utilizada para desdobrar todas as outras. O poeta é o criador, o poeta cria o homem à sua imagem e semelhança. Darren Aronofsky começa a construção do seu Éden. A partir daí temos a bíblia caminhando do Gênesis ao Apocalipse em uma união de acontecimentos que explicam a ruína humana.

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Imagem divulgação – Mother!

A chegada dos estranhos provoca na personagem de Jennifer Lawrence um desconforto imenso que fica visível ao toque da campainha, a possibilidade de um desconhecido atravessar a porta de sua casa, que ela trata como um santuário, lhe gera uma tremenda agonia. Nesse ponto, é preciso dizer que Lawrence executa o seu melhor papel em anos, talvez melhor papel de toda a sua carreira. A atriz carrega o filme nas costas literalmente, Aronofsky exclusivamente reproduz a visão da personagem, tanto quanto o que ela enxerga, como os seus próprios olhares. A angustia, o nervosismo, a sensação de estar sendo invadida, tudo isso é movido pela atriz.

O seu desespero se acentua quando os estranhos, principalmente a mulher desconhecida, inicia uma série de perguntas sobre ter filhos. Está criada a metáfora para Adão e Eva, os personagens de Ed Harris e Michelle Pfeiffer são a personificação do pecado original, o sexo é tratado de maneira pecaminosa, visto de forma suja. Segundo a bíblia, é nesse momento em que a humanidade começa o seu declínio e deve lutar pelo seu perdão, porém a desordem humana continua com Caim e Abel e temos o pecado mortal.

Um ponto importante a ser tratado é que em diversas religiões politeístas é comum a existência das divindades femininas e masculinas que, juntas, promovem a criação. No cristianismo o Deus é único e visto através de uma figura masculina, com a ausência de mulheres sequer dentro de uma hierarquia, no máximo se tem Maria como a mãe de Jesus. A partir dessa leitura é possível traçar uma linha que divide Mãe! entre o antigo e o novo testamento.

No antigo testamento, Deus criou o mundo e o deixou para que a mãe o cuidasse e fizesse dele um lugar perfeito. A esposa representa inicialmente o lado não destrutivo do poeta, esse está claramente sempre procurando por formas de se divertir e de ter mais ideias para as suas criações. Assim, a esposa mesmo detestando as suas decisões, o respeita porque ela mesma é uma parte integrante dele, da mesma forma que Eva surge das costelas de Adão, e desse – absurdo – mistério da criação se origina um dos principais fatores de humilhação, subjugação e submissão das mulheres aos homens.

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Imagem divulgação – Mother!

Já no novo testamento, Deus muda a sua postura e decide entregar à humanidade o seu filho para que este possa proporcionar-lhes a salvação. Esse é, sem dúvida, um dos momentos mais tensos do filme. Aqui Aronofsky foca na destruição do planeta, o que começa com pessoas quebrando partes da casa, causando o completo desespero da esposa, que deixa de ser a representação da dualidade divina e passa a ser, então, de maneira ainda mais clara, a mulher responsável pela casa, mas que ao mesmo tempo não possui qualquer autoridade. Desde a mãe natureza até a mulher comum, Jennifer Lawrence protagoniza a voz nula das mulheres na história. As religiões, as guerras, os cultos, o fanatismo, o ego, a política, a economia, o orgulho foram representados em cada cômodo da casa ocasionando a destruição. Enquanto a esposa procurava incessantemente manter a ordem e restaurar a paz, o poeta nada fez. As mulheres nunca foram escutadas pelos homens, o planeta vem sendo destruído e enquanto a natureza luta para sobreviver, Deus nem ao menos se manifesta e não possui o mínimo controle sobre a sua criação.

Quando finalmente a esposa se torna mãe, ela perde ainda mais o controle da situação. A referência à Jesus Cristo é clara, o homem que foi morto pelo povo que veio salvar, mas a alegoria é ainda maior. Seu filho, na verdade não é seu, ele está sujeito as leis e códigos do mundo e não importa o quanto uma mulher se esforce para cuidar de seus filhos, a culpa sempre será dela. A força empregada por Jennifer Lawrence nos últimos minutos do filme gera mais do que desconforto, gera raiva, medo e tristeza. Mesmo quando é um lado de Deus, a mulher representa o lado frágil, o lado que invariavelmente perde e é humilhado para que um ciclo possa se cumprir.

Exceto por uma cena em que a esposa se coloca na varanda para olhar o mundo lá fora, o filme é completamente escuro, variando em sua tonalidade quando a personagem está em seu paraíso – sozinha com o marido no quarto – e quando ela está no inferno – sendo obrigada a receber visitas. Na parte mais alta da casa está o escritório do marido, enquanto na parte mais baixa está a cozinha. Apesar da repetição de cenários, afinal todo o filme se passa no interior de uma casa ainda em obras, todos os detalhes fazem a diferença. Cada um desses detalhes ou objetos será capaz de abrir um leque de interpretações.

Mãe! é um retrato do que a humanidade é capaz, um retrato da monstruosidade que somos, e se somos criados por um Deus, essa divindade é tão monstruosa quanto. Para as mulheres, esse Deus ou homem, é ainda pior. Do início ao fim a mulher vive encarcerada, sem qualquer poder nas decisões, nunca é escutada e sempre é questionada. O filme de Darren Aronofsky não foi feito para ser entendido ou mesmo agradar, ele foi feito para expor as feridas há milênios abertas. Ele foi feito para tirar o público de sua zona de conforto ao menos durante a exibição. É possível que muitas pessoas não gostem da produção e digam que se trata de algo ruim – muito já foi dito – e isso demonstra exatamente a incapacidade que nós, seres humanos, temos de aceitar a brutalidade das nossas criações.

FICHA TÉCNICA:

  • Mother! — EUA, 2017
  • Direção: Darren Aronofsky
  • Roteiro: Darren Aronofsky
  • Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer,  Brian Gleeson,  Domhnall Gleeson, Jovan Adepo, Amanda Chiu, Patricia Summersett, Eric Davis
  • Duração: 121 min.

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