Crítica | Maniac: uma droga alucinante para curar traumas

Penso, logo existo. A sequência dessa máxima escrita por Descartes, poderia facilmente afirmar que, se pensamos e existimos, logo, existimos em um mar de emoções que se chocam a todo momento, emoções que não respeitam em absolutamente nada os nossos pensamentos e as nossas vontades. Pensar e existir, significa, em regra, possuir alguma loucura. Alguns vivem os extremos de não conseguir definir o que é real – mas convenhamos, de qual realidade falamos? -, outros sofrem com transtornos da existência social, como a ansiedade e os ataques de pânico, até aqueles cujo os problemas são menores, mas às vezes causados por uma profunda angústia do existir, como roer as unhas. Somos seres dotados da capacidade de pensar e de sentir, dessa junção nasce a loucura e as mais diversas peripécias de nossas mentes. Dessa junção, nasce também Maniac, a mais nova minissérie da Netflix que, com um estrelado elenco, tenta percorrer o caminho de duas mentes opostas e complexas em uma jornada pela libertação.

Em Maniac acompanhamos Owen (Jonah Hill) e Annie (Emma Stone), ambos com suas vidas destruídas e vivendo as ruínas de suas próprias mentes. Owen é esquizofrênico e enfrenta graves problemas familiares, enquanto Annie é atormentada pela perda e pela culpa. Suas condições os levam à um teste farmacêutico bizarro para produzir uma nova droga que pretende ser capaz de acabar com toda a dor emocional que uma pessoa possar ter. Para isso, o teste mexe com as mentes dos participantes, causando grandes problemas.

A criação de Patrick Somerville, baseada em uma série norueguesa homônima, conta com dez episódios dirigidos por Cary Fukunaga e demora, propositalmente, a engrenar, arriscando o seu público e a sua audiência. Mas não se engane, ao começar a assistir, um excelente primeiro episódio será o responsável por te atrair não à história, mas sim aos personagens, ou seja, a ficção científica é construída com base na identificação do público com os personagens, e não necessariamente na construção de um universo tecnológico ou científico. Na verdade, a tecnologia se encaixa apenas como um catalisador para emoções, tendo em vista que não há qualquer esforço de explicar procedimentos, sendo assim, a indústria tecno-farmacêutica é um plano de fundo pouco tratado, mas muito bem estruturado para segurar e construir os personagens.

Emma Stone e Jonah Hill incorporam grandes papéis, um dos melhores de suas carreiras. Stone, que vem se aproximando dos dramas mais complexos, ganha uma personagem que faz jus ao seu talento e o resultado e a atriz em uma personagem carregada, pesada e convincente, nada menos do que o esperado por alguém que já conta com indicações ao Oscar no currículo. Por outro lado, Jonah Hill é uma verdadeira surpresa, absolutamente diferente de seus personagens de besteirol, Hill aproveita a oportunidade e mostra o seu talento e versatilidade para o drama.

Imagem divulgação

Patrick Somerville aproveita o elenco que tem nas mãos, que conta ainda com Justin Theroux (The Leftovers) e Sally Field (Lincoln), para criar um misto de drama com comédia, narrando uma jornada tensa através de histórias absurdas. A direção também faz bom uso dessa realidade cômico-dramática, onde as realidades paralelas construídas pelos personagens principais ao longo do teste farmacêutico, são montadas a partir de lembranças de ficção, por esse motivo um gangster representado por Owen soa tão ridículo, assim como uma sequência de ação vivida por Annie – muito bem coreógrafa por sinal – demonstra a sua péssima habilidade de luta ou com armas. O roteiro constrói as narrativas secundárias, ou seja, as realidades paralelas, a partir de referências a filmes de fantasia, ação e besteirol  clássicos, uma mistura excelente implantada em uma distopia. O ponto negativo é a necessidade de manter um ator como Justin Theroux preso a um personagem caricato. Apesar da ótima atuação, condizente até certo ponto com o contexto, Theroux poderia ser melhor aproveitado sem que fosse necessário modificar uma linha da história.

Ao longo dos dez episódios sem duração definida – alguns possuem 26 minutos, outros 47 – a obra utiliza o teste farmacêutico como uma metáfora para os estágios da superação do sofrimento humano. Apesar de não possuir um texto com a profundidade exigida pelo tema, Maniac sobrevive através da relação de empatia criada logo ao início entre o público e os personagens, além de se segurar com todas as suas forças na performance do elenco, que consegue carregar a série vários patamares acima do esperado, dentro de um bom roteiro, mas que não consegue exibir a profundidade necessária para tratar das dores e loucuras propostas, ao fim, fica o sentimento de que as linhas narrativas poderiam ter sido melhor exploradas a partir das realidades paralelas, no entanto, ainda assim, o resultado é bastante satisfatório.

No conjunto da obra, Maniac é um dos últimos bons – e raros – lançamentos estadunidenses da Netflix. Uma produção que explora os seres humanos em sua loucura individual, enquanto lança no ar a ideia de que essas loucuras podem ser compreendidas, amenizadas ou, até mesmo, curadas, através do encontro e da união. Em Maniac, o que começa com uma fuga de si mesmo, termina sem deixar claro quais são as consequências de fugir, mas demonstra muito bem que, às vezes, é preciso fugirmos  de nós mesmos para finalmente sermos capazes de nos encontrarmos.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: Maniac, 2018
  • Criação: Patrick Sommerville
  • Direção: Cary Joji Fukunaga
  • Roteiro: Patrick Sommerville, Caroline Williams, Nick Cuse, Mauricio Katz, Danielle Henderson, Amelia Gray, Cary Joji Fukunaga
  • Elenco: Jonah Hill, Emma Stone, Justin Theroux, Sonoya Mizuno, Gabriel Byrne, Sally Field, Kathleen Choe, Stephen Hill, Danny Hoch, Allyce Beasley, James Monroe Iglehart, Alexandra Curran, Julia Garner, Rome Kanda, Billy Magnussen