Crítica | Milagre na Cela 7: a justiça só não enxerga quando não quer

O longa Milagre na Cela 7 é o novo grande sucesso da Netflix e está deixando as pessoas aos prantos por aí com uma história cheia de amor, poesia e delicadeza. Mais do que isso, o filme toca também em aspectos sociais extremamente relevantes como o sistema de justiça que culpa e julga sem provas.

É importante dizer que estamos aqui falando de um filme turco, portanto, carregado de uma dramatização e roteiro bastante diferentes do que estamos acostumados. Mas ainda assim a produção convence e emociona, por mais de duas horas.

Muitas pessoas pensaram que a história poderia tratar-se de um caso real, mas não é o caso. Contudo, o filme é um remake do longa original de mesmo nome lançado na Coreia do Sul, em 2013. Uma comédia com tons bem mais leves do que é apresentado na versão turca, que acaba errando a mão no excesso dramático para promover a empatia.

O resultado funciona, basta perceber o público que  se sentiu tocado com a narrativa. E não há como não se sentir, o personagem principal, Memo, interpretado por Aras Bulut Iynemli, é cativante do início ao fim. O sentimento de defendê-lo e salvá-lo da injustiça é instantâneo. Isso somado à Ova (Nisa Sofyia) uma criança altamente carismática, por si só poderiam mover todo o longa sem problemas.

Além do elenco, temos uma trilha sonora constante, que pouco a pouco, conforme os acontecimentos se desenrolam vai se tornando mais alta, elevando também o grau de emotividade do espectador. A direção usa de tons vivos e uma câmera lenta e observadora, com a calma que evidencia o quão bom e inocente o personagem principal é.

Tudo isso somado a um final de absoluta redenção por parte de praticamente todos os personagens, gera o resultado perfeito para o Milagre na Cela 7: um filme emocionante de tirar o fôlego. E não porque todos realmente se emocionaram a tal ponto, mas porque o longa exagera, força a manipulação em diversos momentos e não se propõe a abordar os reais problemas, atuando em uma perspectiva devotada ao choro forçado.

As entrelinhas do longa dizem muito. Mas ele poderia ser muito mais claro ao tratar um pouco do personagem principal. Pouquíssimo sabemos de Memo ou mesmo de sua relação com a sua filha, apenas sabemos que é linda e cheia de amor. Ponto. Fora isso, temos uma série de personagens que se compadecem de um homem inocente e de sua filha. Homens que cometeram crimes cruéis, que de repente, a partir dessa relação, tornam-se bons. Nenhum problema nisso. Desde que essa relação fosse aprofundada.

Esses fatos não querem dizer que a mensagem do filme não foi transmitida, ela foi. Mas poderia ser mais forte, mais consistente, mais social, mais política e mais vibrante.

Em todo caso, Milagre na Cela 7 aborda algo muito mais comum, do que nós imaginamos. A justiça, ela não é cega, mas finge não enxergar quando é conveniente. Memo é o retrato de diversos homens e mulheres presos todos os dias sem provas e que morrem na prisão sem sequer irem a julgamento.

No Brasil não temos pena de morte, mas o sistema prisional brasileiro sentencia milhares de pessoas pela vida injustamente. Muitos homens estão presos injustamente por estarem no lugar errado, na hora errada. Seis meses, um ano, cinco anos, dez anos. Poucos dias dentro de uma prisão é o suficiente para mudar uma pessoa para sempre. O fichamento, mesmo que de uma prisão errada, gera uma série de atritos sociais que nunca mais serão consertados. Não há mais emprego, não há mais auxílios, não há mais respeito, não há mais amigos. Resta apenas a real possibilidade do crime.

Muitas mulheres estão presas injustamente, muitas por terem sido associadas a ex-maridos, namorados etc em crimes que elas não cometeram e também não tinham conhecimento. Essas mulheres passam pelas piores humilhações em uma penitenciária feminina. Se o sistema é cruel com um homem, ele é muitas vezes mais com uma mulher.

E aqui somente tratando dos presos injustamente. Porque se levarmos em consideração as pessoas como os amigos que Memo fez na prisão, que deveriam ser reabilitados para adentrar ao sistema, a situação é ainda mais drástica. A esperança de quem cometeu um roubo se torna pó após o sistema prisional. Se ela teve que roubar antes para sobreviver, após estar presa, essa pessoa basicamente não terá mais chances. A reincidência é praticamente uma regra.

A prisão mostrada no Milagre na Cela 7 é surpreendente: camas, colchões, comidas, roupas lavadas, instrumentos… é o retrato de algo que o Brasil praticamente desconhece. Aqui, seres humanos são amontoados, muitas vezes ficam meses sem ver a luz do sol, apanham e viram algo menor do que o lixo. Porque qualquer pessoa após ser tratada dessa maneira, depois de sofrer também uma vida inteira de humilhações do lado de fora, deveria ter esperança e acreditar que a situação pode melhorar? Exato, não há motivo.

Portanto, Milagre na Cela 7 tem a sua importância social mediante aos abusos de poder cometidos todos os dias contra os mais vulneráveis, seja por orgulho, como no filme, ou por uma ilusão da Matrix de que esse sistema funciona. O longa é mais um retrato de que devemos aproveitar momentos de crise para refletir. Memo foi salvo e pôde viver com a sua filha, mas muitas Ovas por aí terão destinos muito mais cruéis, enquanto todos nós fecharmos os olhos para uma justiça míope por conveniência.