Crítica | O Poço: a mão que te alimenta é também a mão que te tortura

Em tempos de distanciamento social forçado por uma pandemia, mas que também já vem ocorrendo, de alguma forma, há bastante tempo devido à polarização política, um filme como O Poço é como uma luz em um túnel escuro que parece não ter fim.

Uma prisão onde as pessoas estão divididas em níveis e a alimentação é passada do primeiro ao último de maneira livre, resultando em um ambiente onde poucos comem muito e muitos comem nada.

A semelhança com o sistema econômico social vigente do planeta não é mera coincidência. O objetivo do diretor Galder Gaztelu-Urrutia é demonstrar a discrepância entre as classes sociais e mais do que isso, apontar para a capacidade que as classes dominantes possuem de manter o controle através da falsa lógica do mérito. A competição é infinita e o verdadeiro inimigo acaba tornando-se invisível.

O Poço é um filme de terror que assusta em diversos aspectos, desde as cenas mais fortes envolvendo todos os horrores ali apresentados, mas principalmente por esfregar na nossa cara que todos nós vivemos em um grande poço, sustentando uma pequena parte da população, que há muito tempo perdeu a sua humanidade e utiliza outros seres humanos como uma escada infinita por mais e mais poder, sem o mínimo de escrúpulos.

E nessa lógica doentia, o longa avança em uma velocidade assustadora, portando uma tensão que vai do início ao fim. Não há um minuto de sossego, porque mesmo que exista a paz de ter a comida em determinado momento, ao mesmo tempo existe o desespero de saber que em breve não haverá.

FINAL COMENTADO (SPOILERS):

Em determinado momento do filme, vemos uma cena que parece ser aleatória, mas que em nossa opinião soluciona o final enigmático de O Poço. Em uma cozinha, com vários funcionários, onde o chefe claramente está muito irritado com um cabelo em uma sobremesa, desesperado para saber quem foi que cometeu a falha. Nesse momento, ficamos sem entender, mas isso vem ao final.

Quando Goreng e Baharat encontram a menina e decidem que ela é a mensagem, na verdade, eles já chegaram em seus limites e provavelmente estão mortos, assim como a menina realmente não existe. E o que sobra, na realidade, é somente a sobremesa, que deveria servir como mensagem para a gerência.

Contudo, a gerência está tão acima de quem tem que sobreviver ao poço, que nem sequer se dá conta do ocorrido, quem recebe a mensagem é a cozinha, que está preocupada somente em servir um gigantesco banquete impecável. E quando a sobremesa retorna, ela tem um fio de cabelo. E a mensagem soa como uma reclamação e não como um pedido de socorro.

Portanto, a conclusão do longa, nada mais é do que uma metáfora para os níveis sociais em que vivemos. A cozinha não consegue compreender a mensagem não somente porque ela está acima, mas porque assim, como a personagem que trabalhou para a administração durante 25 anos, eles não sabiam dos horrores que aconteciam ali, ou por conta da pressão de oferecer sempre um banquete impecável, não conseguiam sequer prestar atenção a isso.

Em uma analogia ainda mais ousada, poderíamos dizer que aqueles que vivem no poço representam a classe trabalhadora, que sobe e desce o tempo inteiro com a oscilação da economia e do estado. A cozinha, a classe média, trabalhando incessantemente e de maneira cega, para atender os interesses da gerência, os donos das grandes fortunas e que fazem o que bem entendem com quem está abaixo.

Em resumo, a mensagem não poderia ser entregue por apenas um, mas sim pelo coletivo, atingindo diretamente a gerência. Mas a preocupação individual, como o que acontece agora com o Covid_19, impede que as pessoas raciocinem sobre qual é o real problema. Pessoas querem a todo custo garantir o seu sustento, pedem pela possibilidade de trabalhar, saindo de casa, se arriscando (presos no poço), enquanto os médios empresários exigem a abertura e continuidade de suas empresas (cozinha), ao invés de ambos pressionarem os milionários e governos (gerência) para que trabalhem para solucionar da melhor forma a situação.

Então, minha gente, é aquela história, uma andorinha só não faz verão. O Poço deixou isso bastante evidente.