Crítica | Ozark: nova série surpreendente da Netflix

Jason Bateman (Arrested Development) vive na série Ozark, recém lançada pela Netflix, Marty Byrde, um típico pai de família que há dez anos atrás optou por um caminho que mudou para sempre a sua vida.

Ozark, ao longo dos seus dez episódios, coloca os seus personagens – principais e secundários – em situações que os levam aos extremos do limite. Atos que podem destruir cada pedaço de suas vidas. Marty Byrde, pacato consultor financeiro, compreendeu a duras penas como as partes de sua vida e de sua família estavam, de maneira voraz, despedaçando-se.

Marty coloca a situação da lavagem de dinheiro em dois pesos e duas medidas: ele não estará roubando, ele é um pai de família e precisa prover aquilo o que a sua família precisa. Assim, Marty passa a lavar o dinheiro sujo de Del Rio, representante do segundo maior cartel do México.

O consultor não pensa muito em de onde o dinheiro vem ou como ele é adquirido, a sua racionalização está em seu papel de homem na sociedade como o provedor. De maneira nenhuma podemos dizer que ele seja uma pessoa ruim, o que Marty faz é fechar os olhos para o pior, mas infelizmente o pior, nesses casos, sempre chega.

Traído pelo amigo que resolveu desviar o dinheiro de Del Rio, Marty se vê em situação de quase morte, pensa em sua esposa, seus filhos e jogando todas as suas cartas em um blefe memorável, convence o seu chefe de que ele pode não apenas devolver o dinheiro roubado por Bruce, seu sócio, mas também pode executar a lavagem de dinheiro em outra cidade, um lugar distante e sem suspeitas: Ozark.

Daí em diante, a família Byrde parte em direção ao Missouri e inicia uma jornada catastrófica repleta de erros. O interior do Missouri, aqui, não é apenas mais um espaço cheio de caipiras brancos, burros, pobres e estereotipados. Não, o enredo é muito mais profundo. A família Langmore é um típico exemplo de pessoas que se afundam em crimes por motivos que vão muito além de ser bom ou ruim: a sociedade não é boa e nem sempre pode cobrar que todos sejam.

Acompanhando os problemas com a comunidade local, Marty ainda tem que lidar com um problema ainda maior, ao menos para a suas capacidades emocionais: a traição de sua esposa Wendy (Laura Linney). E nesse quesito, a trama alcança um patamar ainda mais elevado. Wendy não é colocada no papel de esposa ingrata que trai marido enquanto ele trabalha duro (cometendo um crime) para sustentar a família. Wendy é uma mulher forte, muito mais forte do que o marido, muito mais determinada e equilibrada. Marty sabe de tudo isso, e é por isso que ele precisa dela. Mas acima de tudo, apesar da dor de ter sido traído, ele também sabe que a culpa não é inteiramente de Wendy e sobre esse assunto, a série promove um desenvolvimento louvável.

As discussões morais não terminam aí. O impasse com relação ao tráfico que leva uma criança a questionar a finalidade de ser contra o uso drogas, quando o país tem grande parte de seu sustento nessa atividade.

Com uma belíssima direção, um roteiro brilhante e uma trilha sonora que culminam por cativar e impactar ainda mais o público, Ozark é um grande acerto da Netflix e do próprio Jason Bateman, um dos produtores da série que concorre a vaga de Breaking Bad dentro do gênero. No entanto, Ozark consegue ultrapassar as barreiras que pedem por um protagonista que torne-se um vilão ou caia nas graças do crime sem qualquer limite. Marty e Wendy não desenvolvem qualquer traço de vilania, muito pelo contrário, o que move todas as suas atitudes – que são pensadas ao máximo para não fazer mal a ninguém – é o bem estar da família. Marty ainda possui uma ansiedade constante que literalmente não o deixa deitar a sua cabeça no travesseiro, além de uma paciência de monge para lidar com todos os desastres que ele mesmo causa ao tentar consertar as coisas.

A nova produção da Netflix, de Mark Williams, mostra um mundo imperfeito seja lá qual for o lado para onde você olhe. Certo ou errado são mais do que relativos, e todos, sem exceção, possuem culpa no cartório, e se não possuem, irão se deixar levar e passarão a ter. Afinal, as possibilidades estarão sempre batendo à porta e em algum momento, a visita entrará, seja por bem ou por mal.

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