Crítica | Portrait of a Lady on Fire

A história narrada no filme francês Portrait of Lady on Fire  (em português Retrato de Uma Jovem Em Chamas) não conta com qualquer plot gigantesco. Na verdade, a trama se faz na simplicidade de reconhecer o amor nos gestos, nos olhares, nos movimentos e mais, nas incertezas, nas inseguranças e nas impossibilidades.

Uma pintora é convidada a pintar um quadro de uma jovem que está prestes a se casar. O problema é que essa jovem já há algum tempo resiste a posar para o retrato, porque também resiste ao seu destino de um casamento planejado contra a sua vontade.

São duas realidades bastante distintas apresentadas. Estamos tratando do século 19, onde o papel da mulher era majoritariamente este: o de esposa. Mas aqui temos um fator incomum, uma jovem pintora livre e dona de seu destino, que por sorte de vir de uma família de artistas, opta por não casar-se. Enquanto, a mulher a ser pintada não foi e não será contemplada com essa escolha. E nessa história de um quadro que precisa nascer obrigatoriamente para que um casamento aconteça, nasce também um sentimento intenso.

Dirigido por Céline Sciamma, Portrait of a Lady on Fire é uma poesia em audiovisual. Um filme de longas sequências, longos silêncios, rápidos diálogos que dizem tudo e olhares que poderiam estender-se por uma eternidade. É de uma beleza que somente o cinema pode proporcionar e por isso amamos tanto a sétima arte. Com referências que nos remetem diretamente ao longa Persona, de Ingmar Bergman, o filme suscita importantes debates sobre a liberdade da mulher, evocando, inclusive, a sua trajetória dentro da história da arte.

O detalhamento utilizado para criar as atmosferas vividas pelas personagens é sublime. Podemos dividir em três fases: a primeira é fase da desconfiança e competitividade, quando as duas se conhecem e ocorre um estranhamento claro daquilo que uma pode afetar na outra, sendo necessário o distanciamento total ou, daquilo que era preciso no contexto, a aproximação entre duas mulheres com universos muito diferentes e particulares. A segunda fase se localiza na criação da confiança em um ambiente de amizade, onde os dois universos podem coexistir. O problema é que na terceira fase, ocorre a quebra da coexistência, já que um romance lésbico no século 18 jamais poderia perdurar, sobrando apenas o fim e a lembrança daquilo que não deveria ter existido.

Ao assistir o filme, que como já dito acima, não se preocupa em manter um ritmo agradável e de fato caminha ao mais contagioso passo da melancolia, lembre-se de conectar tudo aquilo o que se diz ao início com as cenas impecáveis que ao fim, dizem tanto, sem usar uma palavra sequer. A beleza de Portrait of Lady on Fire se encontra exatamente nesse aspecto, nos seus silêncios e gestos capazes de trazer à tona os sentimentos mais dissonantes. Além de deixar evidente nas entrelinhas e em linhas gerais, o desconforto de todas as mulheres por não terem controle sobre seus próprios corpos.

Adele Haenel e Noémie Merlant estão impecáveis nos papéis principais e representam com louvor a intensidade de um relacionamento efêmero localizado em uma ilha deserta no Reino Unido. Desejos, vontades, corpos, emoções e dores que se unem e transcendem. A direção exalta esse trabalho primoroso promovendo essa intimidade não como sedução barata, mas com a entrega necessária para que quem assiste sinta, perceba e consiga estar em cada um desses momentos.

Portrait of a Lady on Fire não é um filme para assistir, é um filme para sentir. É cinema artístico, reflexivo e poderoso em cada um de seus frames. É um filme que toca a alma e deixa ao mesmo tempo a alma cheia e o coração vazio.