Crítica | Sharp Objects

Antes de iniciar esta crítica, é preciso colocar que aqui não existe qualquer preocupação de realizar uma comparação com o livro de Gillian Flynn, obra que deu origem a série. O foco desta publicação é exclusivamente a produção televisiva realizada pela HBO.

Quando a série foi anunciada, ninguém em sã consciência ousou questionar a adaptação, afinal de contas, uma produção protagonizada por Amy Adams (A Chegada), com direção de Jean-Marc Vallée (Clube de Compras Dallas, Big Little Lies), adaptada de um livro de Gillian Flynn (Garota Exemplar) e com residência na HBO, dona das implacáveis Westworld, The Leftovers, Game of Thrones e Big Little Lies, só poderia ser aguardada como uma das melhores séries do ano. Expectativa confirmada a cada semana e, finalmente, após o emblemático episódio final.

Sharp Objects é, acima de tudo, uma produção sobre mulheres, mas de uma maneira diferente de tudo o que estamos acostumados e já nos acostumando a ver. Um drama policial que usa assassinatos como um estopim para um choque entre três diferentes gerações de mulheres de uma mesma família, todas elas afetadas por uma obrigação social sobre o ser feminino. Camille, Amma e Adora representam três reações diferentes ao mundo masculino, mas que geram consequências gritantes e fatais, tanto para elas, quanto para aqueles que as rodeiam.

Adora é a representação da típica menina dos olhos da América, a beleza, a prosperidade, a educação, a polidez, a generosidade, a bondade, entre outras características que ditam a figura da mulher perfeita. Contudo, essa visão externa, esconde as imperfeições que, de forma nenhuma, podem ser vistas pela sociedade. Adora é o reflexo da cidade onde nasceu, forçada a adotar um espírito acolhedor, acaba cobrando muito caro por essa hospitalidade.

Camille atua exatamente na lógica oposta. Marcada por traumas que habitam a sua pele, a personagem se defende das pressões familiares aderindo uma postura que contraria completamente o ideal de uma mulher perfeita. Mas essa contrariedade só existe a partir de efeitos colaterais perversos que tornam a vida uma terrível experiência que marca a sua alma e a sua pele.

Amma procura manter, de maneira forçada, a sua personalidade forte e independente na superfície, mas não esconde a sua soberba e narcisismo, criando uma personagem incômoda, quase intragável. Mostrando-se algo entre Camille e Adora, ou seja, o meio termo para sobreviver e ser a garota perfeita em uma sociedade machista e misógina de interior.

Essas três diferentes personalidades sobrevivem em uma sociedade que representa muito bem os Estados Unidos, terra da felicidade e da prosperidade, principalmente o sul do país, ou seja, aparentemente solícitos e receptivos com os visitantes e de uma crueldade gritante que machuca sem deixar marcas. A cidade de Wind Gap é claustrofóbica, é quente, é sufocante, é incômoda. Como se todos os olhos estivessem a todo momento voltados para o mesmo lugar, buscando destruir tudo o que possa renovar o ideal arcaico construído no século XVIII.

Imagem divulgação – Sharp Objects (HBO)

A direção de Jean-Marc Vallée é cirúrgica ao demonstrar essa atmosfera doentia de Wind Gap através dos flashes de memória de Camille. A perturbação de suas lembranças são dilacerantes e nada mais precisa ser explicado. Em um flash que dura cerca de um segundo, é possível compreender toda a sua dor sem que absolutamente nada precise ser dito.

Mas a direção de Vallée não serviria de nada, se não fosse pela brilhante atuação de Amy Adams. A atriz executou um dos melhores papeis de sua carreira e merece a sua vaga no Emmy do próximo ano. Camille pouco fala sobre os seus problemas, na verdade, ela foi criada em um ambiente hostil de constante silenciamento e culpa, resultando em um ser humano quebrado vestindo uma armadura que a mantém de pé. Todos esses traços ficam evidentes nos olhares de Adams, seus gestos, sua voz. Nada passa despercebido. Em um segundo, um olhar da atriz é capaz de quebrar, momentaneamente, a estrutura daqueles que assistem.

Sharp Objects é, sem dúvidas a respeito do que está por vir, a melhor série do ano. Uma série que utiliza o crime e a busca pelo criminoso ou criminosa, para colocar na superfície a verdade por trás de tudo aquilo o que parece ser perfeito. O objetivo em Sharp Objects nunca foi a solução dos crimes, mas a solução de uma situação familiar construída sobre abusos, assim como o que esses abusos podem ocasionar. Sharp Objects é sobre mulheres lutando para recolher os pedaços que lhes são arrancados diariamente.

O seu fim é como um forte soco no peito, é de deixar qualquer um sem ar. É um corte seco que deixa as perguntas escorrerem por uma ferida que não vai cicatrizar. Um final que esbanja beleza em toda a sua ausência ou excesso de significados. Algo que nos faz querer sair correndo e contar para todo mundo, menos para a mamãe.

FICHA TÉCNICA:

Título: Sharp Objects
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: Gillian Flynn, Marti Noxon
Elenco: Amy Adams, Patricia Clarkson, Chris Messina, Eliza Scanlen, Matt Craven, Henry Czerny, Taylor John Smith, Madison Davenport, Miguel Sandoval, Sophia Lillis, Lulu Wilson, Elizabeth Perkins, Beth Broderick, Catherine Carlen, Loretta Fox, D.B. Sweeney, Jennifer Aspen, Barbara Eve Harris