Crítica | Stateless: entre a fronteira da humanidade e da monstruosidade

Stateless (Estado Zero) chegou sem alarde à Netflix, como tem acontecido com a maioria das produções mais pesadas que apresentam como base questões políticas, sociais, econômicas e culturais, mas merece atenção somente pelo tema que coloca em discussão.

A imigração é um dos grandes problemas de um mundo dividido por barreiras e fronteiras tão absurdas. Barreiras e fronteiras criadas, em sua grande maioria, de maneira arbitrária em processos de colonização que destruíram e colocaram em choque culturas, povos e religiões. Fronteiras que beneficiaram e beneficiam há séculos, aqueles que hoje se recusam a receber um imenso contingente populacional que busca única e exclusivamente fugir da guerra, da tortura e da morte.

Para abordar essa situação cruel, a série criada por Cate Blanchett, ao lado de Tony Aires e Elise McCredie, baseia-se na história de uma alemã portadora de um visto definitivo australiano, que acabou sendo detida ilegalmente em um campo para refugiados ilegais na Austrália.

Para a dramatização, a personagem é descrita como Sofie (Yvonne Strahovski), uma australiana que, após sofrer uma série de abusos, decide fugir de tudo e de todos e contra a sua vontade acaba indo parar em um campo de refugiados. Junto de sua história temos outras quatro narrativas principais: Ameer (Fayssal Bazzi), um professor afegão que foge com sua família de seu país em guerra, para chegar em uma Austrália nada acolhedora; Cam (Jay Courtney) um pai de família simples que consegue um emprego no campo de detenção e precisa suportar situações impossíveis; e Clare (Asher Keddie), uma gestora de conflitos e pessoas que precisa gerir as situações que permeiam o centro de detenção de refugiados.

A trama usa a protagonista, que diversas vezes é colocada em segundo plano, como um fio condutor dessas demais histórias. Ninguém sabe sobre como Sofie chegou até ali, e esse é também um mistério para o espectador, mas o tempo não tarda para que aqueles que mantém a ordem do sistema acreditem que ela seja uma mula de drogas ou vítima de tráfico sexual. E em todo caso, ninguém se importa em qualquer que seja o caso, se ela foi parar ali, é porque tem algo de errado. Pior do que uma prisão convencional, um campo de refugiados te condena antes que qualquer culpa seja provada.

Ao dividir a situação do campo em quatro olhares completamente distintos, Stateless cria uma narrativa angustiante do início ao fim, demonstrando o quão desumana é a situação dos refugiados para todos, seja para quem está preso, ou para quem supostamente está no comando. A lei e a burocracia atuam lado a lado do preconceito e da intolerância que transformam seres humanos que fogem por medo, em pessoas ruins, em pessoas perigosas, em potenciais terroristas.

Na trama, temos uma visualização do sistema de imigração, onde o estado desumaniza os refugiados que, ao chegarem no país, recebem um código pelo qual passam a serem chamados. A partir daí, vivem em condições precárias e podem passar anos até que finalmente consigam um visto ou, por mais cruel que soe, sejam mandados de volta para os seus países, onde com certeza, serão mortos.

E é com essa dura realidade no tratamento dos refugiados que Cam e Clare devem lidar. Duas pessoas boas, com ideais e princípios inclusivos e solidários, a todo momento se vendo obrigados a quebrar os seus valores éticos em prol de uma suposta moral estatal. A convivência com aqueles que também não se importam e realmente acreditam que os refugiados são inferiores, acaba por ir corroendo pouco a pouco suas próprias personalidades, até que eles não aguentem mais.

Stateless marca de forma cirúrgica, mas sem anestesia, a forma como o estado branco burocrático ocidental lida com questões humanas. Existe uma esquizofrenia que simplesmente não aceita que o estrago mundial, as problemáticas da guerra e as desavenças culturais que perduram sem a capacidade de vislumbre de um fim, foram ocasionados por eles mesmos. O Estado autoritário europeu, que se mostra democrático para seu próprio benefício e dá origem ao Estado australiano, é, resumindo em dois adjetivos bem simples, cruel e egoísta.

Teremos barcos e mais barcos com humanos à bordo saindo do Oriente Médio, da África, da América do Sul, em fuga para qualquer lugar que não seja o seu lugar de origem. Qualquer lugar que não esteja mais marcado pela história de destruição e interferências. Qualquer lugar em que estas pessoas sejam tratadas como humanas.

Stateless desenha muito bem o significado da palavra fronteira. As fronteiras não são simplesmente linhas imaginárias que dividem um território, fronteiras são limites éticos e morais sobre como uma nação irá tratar um membro de uma outra determinada nação. A fronteira existe para o diferente e para o igual que se recusa a ser como eu. A fronteira é imaginada para que países como a Austrália, possam se sentir superiores e salvadores, enquanto dão suporte e financiam o sofrimento e o horror para as pessoas do outro lado dessa linha de hipocrisia colonial sem fim.

Adendo: a série conta a participação sempre brilhante de Cate Blanchett, que aqui cria, produz e atua.