Crítica | Tabula Rasa: série belga trabalha um poderoso jogo de memória

Tabula Rasa chegou à Netflix sem fazer estardalhaço, sem grandes estratégias de marketing, sem alcançar polêmicas políticas estatais, mas se mostrou um dos maiores achados dentro do serviço de streaming nos últimos meses.

Com um tom obscuro característico das produções europeias – Tabula Rasa é uma série belga – a série conta a história de Mie D’Haeze (Veerle Baetens), uma mulher que sofre com amnésia anterógrada, o que a impede de se lembrar de acontecimentos recentes em sua vida. Não bastando esse problema, Mie passa a ser alvo da investigação de um desaparecimento, sendo internada em um hospital psiquiátrico. À medida em que Mie precisa se lembrar do que lhe aconteceu antes de ser internada, a série nos joga três meses antes do desaparecimento, permitindo que seja possível acompanhar a vida da personagem em sua dificuldade de guardar novos acontecimentos.

O fato da personagem não conseguir lembrar-se do ocorrido automaticamente a torna uma personagem não confiável, nem mesmo ela pode confiar em si mesma, montando um caminho que o público percorre sem ter consciência do que realmente está acontecendo. Assim, a trama se desenrola em meio aos flashbacks, lembranças, sonhos, pesadelos e a completa incapacidade de lidar com o momento presente, afinal, só se lida com o presente quando se conhece minimamente o passado.

Diante dessa impossibilidade de julgar os acontecimentos como verídicos, se constroem os personagens ao redor de Mie. Neste ponto, precisamente, encontra-se a inovação presente em Tabula Rasa: não nos é permitido conhecer completamente os personagens, nem mesmo a própria protagonista, já que a sua memória falha a todo momento, esse fato gera uma enormidade de possibilidades para serem refletidas e nos obriga ao julgamento quase que involuntário. A imersão pelos caminhos perigosos da mente de Mie provoca o sentimento de culpa e a sensação terrível de ter um julgamento errado, funcionando como uma gigantesca metáfora para a não absorção de eventos isolados, instigando uma visão mais holística, demonstrando que nem tudo é o que parece ser.

A trilha sonora pesada e a fotografia com tons escuros e densos não permitem um único momento de paz. A direção faz um excelente trabalho ao conseguir manter a atenção exatamente onde ela quer. A tensão, a angustia e a paranoia estão por toda parte. Durante os nove episódios a mistura entre o drama, o suspense e o terror psicológico casam perfeitamente, a série possui um ritmo continuo que se mantém em uma crescente montagem de quebra-cabeça. O roteiro é primordial ao não deixar pontas soltas, mesmo que isso signifique um desfecho um tanto quanto controverso.

A expressão que dá título à série quer dizer literalmente “tábua raspada”, o que possui significado de “folha de papel em branco”, e é exatamente disso que a produção se trata, de uma memória em branco que está sempre sendo preenchida com novas tintas, mas essas nem sempre são das cores que deveriam ser. Para além, todos nós podemos ser uma folha em branco quando procuramos em uma situação sem querer preencher o todo, quando procuramos alcançar o horizonte de uma pintura sem enxergar a sua perspectiva.

Tabula Rasa é uma série instigante e desafiadora. Repleta de mistérios a serem desvendados e personagens a serem construídos e desconstruídos, a aventura pela mente humana é sempre gratificante, fazer esse caminho por uma mente que constrói uma realidade própria é provocador.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: Tabula Rasa
  • Roteiro: Malin-Sarah Gozin, Veerle Baetens
  • País: Bélgica

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