Crítica | The Crown – 2ª Temporada: um dos melhores dramas históricos de todos os tempos

A segunda temporada de The Crown traz, com um brilho ainda maior, a hipnotizante história da família real britânica. Em sua segunda temporada, a série se confirma e eterniza-se como um dos maiores dramas históricos de todos os tempos, e certamente a melhor série dramática em anos, mais uma vez favorita ao Globo de Ouro.

Em seu projeto à primeira vista megalomaníaco, mas que vem se provando uma verdadeira obra prima do audiovisual, Peter Morgan pretende realizar nada mais, nada menos, do que seis anos da série, cada um deles representando uma década do reinado de Elizabeth II. Ao fim, como Morgan vem mostrando, teremos não só um retrato detalhado da realeza britânica, mas uma experiência bela e intimista com personagens tão marcantes deste e do último século.

Ao contrário da primeira temporada, a segunda surge com uma perspectiva mais familiar, mas ainda mantendo a sua leitura através de momentos específicos, proporcionando uma impressionante fluidez cronológica aos fatos que não mais estão completamente focados em Elizabeth, agora alguns membros da família ganham mais destaque, como Philip (Matt Smith) – esnobado no Globo de Ouro – e a princesa Margaret (Vanessa Kirby), ambos são preciosos em suas atuações e fazem jus às histórias que representam.

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Imagem divulgação – The Crown

Uma das maiores belezas de The Crown está em sua capacidade narrativa de – respeitando a licença poética – ser fiel aos fatos. O que foram rumores, são tratados como tal, dando o benefício da dúvida e não atacando a coroa em momento nenhum. É com enorme sutileza que Peter Morgan conduz os episódios, as palavras que importam e que condenam nunca são ditas, fica a critério do público tirar as suas conclusões.

Assim, quando a temporada trabalha o desconforto de Philip com a sua posição dentro da realeza, ou simplesmente por ser somente o marido da rainha, o roteiro trabalha muito mais do que isso. O transtorno de Philip se dá exatamente pela inversão de papeis, o Duque de Edimburgo não suporta o fato de estar sempre atrás de sua própria esposa, não aguenta viver o apagamento de ser somente o marido da rainha. Agora vejamos, quantas mulheres historicamente viveram essa posição? A pergunta fala por si só. É claro, a coroa tem o poder de destruir a mais forte das criaturas, mas essa criatura não é Philip, mas Elizabeth que precisa lidar com a pressão de um país inteiro e com as reclamações vazias de seu marido.

Já Margaret, sofre por viver à sombra e à mercê das decisões de sua irmã que, obrigatoriamente, segue um protocolo. A personagem ganha espaço e é capaz de demonstrar a dor e a tristeza de ser uma princesa. Se por um lado ela adora os privilégios de ser irmã da rainha da Inglaterra, por outro, ela não consegue lidar com o fato de ser apenas a irmã da rainha da Inglaterra. O seu drama pós Peter Townsend (Ben Miles), se transforma em uma jornada de descobrimento sobre o seu próprio eu. Vanessa Kirby é estonteante em sua atuação e conseguimos ver a mulher por trás de seu título real.

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Imagem divulgação – The Crown

Mas nada se compara ao peso de possuir a coroa, nada se compara a responsabilidade de dar vida – a ainda viva – rainha Elizabeth II. Claire Foy é estupenda, magnífica, genial. Foy incorporou perfeitamente os gestos, a forma de mexer as mãos, a maneira de falar, todos os movimentos nos remetem às imagens da verdadeira Elizabeth. A atual vencedora do Globo de Ouro e mais uma vez indicada, consegue se destacar maravilhosamente mesmo quando possui menos destaque. A rainha é conhecida por não demonstrar muitas emoções, assim Foy precisava transpassar todos os sentimentos de maneira muito sutil, e ela consegue. São leves mudanças de olhares, movimentos com a boca e com a cabeça, mãos que se entrelaçam, em cada mínimo detalhe desses permanecemos estatelados no sofá. Seja lá qual for o sentimento que tenha que transparecer, é possível entender perfeitamente, sem falar da conexão que ela cria com o público. Quando a temporada termina, o sentimento que fica se define em uma frase “God save the Queen!”.

Com uma grandiosa riqueza de detalhes, figurino impecável, trilha sonora que complementa com exatidão a construção do roteiro, uma fotografia que é sinônimo de beleza e direções que extraem o melhor do elenco e do roteiro, The Crown entrega a sua segunda temporada ainda melhor do que a primeira. Um projeto que a cada temporada nos enche os olhos com uma história tão rica – em todos os aspectos –, ao mesmo tempo que sufoca.

O projeto grandioso de Peter Morgan continuará, mas agora, devido ao envelhecimento dos personagens, com a mudança do elenco principal. A decisão é arriscada, mas diante do que vem sendo apresentado, podemos esperar um retorno grandioso.

FICHA TÉCNICA:

  • The Crown – 2ª Temporada 
  • Criação: Peter Morgan.
  • Direção: Philip Martin, Benjamin Caron, Philippa Lowthorpe, Stephen Daldry.
  • Roteiro: Peter Morgan, Amy Jenkins, Tom Edge.
  • Elenco: Claire Foy, Matt Smith, Vanessa Kirby, Victoria Hamilton, Alex Jennings, Daniel Ings, Lia Williams, Greg Wise, Anton Lesser, Matthew Goode, Gemma Whelan, John Heffernan, Paul Sparks, Michael C. Hall, Jodi Batour, Burghard Klaussner, Finn Elliot, Julian Baring, Pip Torrens, Harry Hadden-Paton, Jared Harris, John Lithgow, Danny Sapani.

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