Crítica | The Midnight Gospel: até onde o conhecimento pode te levar?

Podemos dizer que The Midnight Gospel foi uma bela surpresa com a qual a Netflix nos presenteou durante esse isolamento. Nesse momento em que estamos afastados de nossas atividades normais, e mais do que isso, estamos vivendo uma situação completamente atípica, é natural que mesmo involuntariamente a gente reflita mais sobre a vida, o universo e tudo mais. Assim, The Midnight Gospel não poderia ter vindo em melhor hora.

A nova série da Netflix conta com a criação de Pendleton Ward, conhecido por A Hora da Aventura, mas não se engane, não há nada de parecido entre elas, exceto pelo visual mirabolante, mas que ganha um design ainda mais refinado em The Midnight Gospel.

Também não espere que a série seja minimamente parecida com Rick and Morty, porque elas estão separadas por alguns universos. Ambas podem discutir a realidade da existência, mas The Midnight Gospel conta com uma maturidade que Rick and Morty ainda desconhece. Não nos entendam mal, nós amamos Rick and Morty.

Agora que já fizemos essa diferenciações, vamos ao enredo. A história acompanha Clancy, um jovem que adquiriu um simulador de universos e viaja através dele para conseguir entrevistas para o seu spacecast (um podcast espacial). A partir disso Clancy entrevista um presidente em meio a um apocalipse zumbi, um cachorro com chifres de cervo que come palhaços, um ex-presidiário que aprendeu magia e por aí vai.

O que acontece é que basicamente em meio ao completo caos, Clancy realiza entrevistas com um alto teor filosófico e de maneira extremamente natural. As conversas correm de uma maneira absurdamente simples e os assuntos são os mais diversos, como a relação que os humanos possuem com as drogas, o perdão, a morte, o conhecimento de si mesmo. Histórias incríveis em cenários fantásticos.

E são exatamente os cenários que tornam as conversas mais fáceis de serem digeridas. Os temas, apesar de discutidos com naturalidade, são pesados, com muitas referências que você pode desconhecer – mas que é muito interessante pesquisar depois. Discutir magia, por exemplo, com citações que vão de Aleister Crowley até o budismo tibetano não é simples, mas se torna mais fácil se você está ouvindo tudo isso enquanto vê um monte de gatinhos executando tarefas difíceis na tela. É genial.

A produção ganhou classificação indicativa de 18 anos e embora conte realmente com cenas de corpos sendo partidos ao meio e mortes ainda mais horrorosas, não é esse o motivo da classificação. O pesado aqui são os debates realizados por gente grande, gente grande porque entende do que está falando, mas que não tem qualquer medo de ser questionada ou mudar de ideia. É lindo demais de ver e ouvir.

A melhor parte? Os diálogos reproduzidos de forma calma, quase serena, foram retirados em parte ou inteiramente do podcast Duncan Trussel Family Hour, criado por Duncan Trussel, onde ele entrevista pessoas com histórias interessantes e com pontos de vista cheios de reflexões profundas. Ward teve a ideia de produzir a animação quando ouviu um desses episódios. Por isso, em alguns momentos o personagem principal, Clancy, é chamado de Duncan, para que o texto tivesse o mínimo de alterações possíveis.

No entanto, o mais importante não são as incríveis reflexões, mas aonde elas são capazes de levar o personagem principal e também nós mesmos.

De que adianta buscar por tanto conhecimento sobre a vida, o espírito, as capacidades humanas de sofrer, se reconstruir e amar, se estamos o tempo inteiro fugindo dessas questões dentro nós? Talvez esse seja o maior e mais desafiador dilema da sociedade: estamos sempre tão preocupados em entender o que muitas vezes não tem explicação, porque simplesmente é e se sente e, assim, acabamos nos tornando incapazes de sentir o que realmente importa e nos focamos em sentimentos que nos prendem à coisas triviais.

Conhecimento é libertador sim, é a chave para muitas descobertas e evolução, em diversos aspectos, contudo, essas descobertas só terão sentido se soubermos vivenciar o novo, sem medo de onde isso pode nos levar. O conhecimento da boca para fora não é conhecimento, é pura teoria. Conhecimento requer prática e a prática leva à mudança de quem somos. Essa é a experiência que vivemos ao assistir The Midnight Gospel.

Todos nós somos a famosa somatória de nossas experiências. Clancy, o personagem principal, acaba absorvendo todos os ensinamentos que aprende em seu spacecast, mas esquece de colocar esse conhecimento para fora, sem saber lidar consigo mesmo. Mas ao passo que ele se vê confrontado, existem apenas duas opções, se esconder ou mostrar sua verdadeira luz, e é esse o caminho que, aos trancos e barrancos, Clancy e todos nós estamos trilhando nessa jornada de desafios.

Cada ser humano que passa pelo nosso caminho, poderá acrescentar algo. E às vezes cabe a nós saber como extrair o melhor de conversas que parecem ser aleatórias. Viver é uma viagem longa, ao mesmo tempo curta e maravilhosamente ridícula, a partir disso, a decisão de enxergá-la como algo sem sentido ou não, é somente sua, mas a viagem continuará acontecendo. Cada um dos personagens entrevistados por Clancy nos dá um panorama para enxergar essa viagem e cada um deles nos abre inúmeros caminhos para viver essa jornada.

Resumindo, The Midnight Gospel é uma grande metáfora lisérgica, uma explosão de cores e sentimentos, sem qualquer risco e que você pode realizar de casa, de preferência, comendo uma pizza. Não perca tempo, a Netflix, ao contrário da evolução, está a um botão de distância de você.