Crítica | The Politician: mesmo com críticas sociais e sarcasmo, série não é o melhor de Ryan Murphy

Um dos showrunners mais amados dos últimos dez anos, Ryan Murphy acaba de lançar o seu mais recente trabalho, dessa vez com a Netflix, e consegue trazer tudo aquilo o que ele tem de melhor e pior na série The Politician.

Ryan Murphy é um dos melhores produtores e roteiristas desta era, dono de séries como Pose, Feud, American Crime Story, Glee e American Horror Story, Murphy esbanja versatilidade e um absurdo domínio de tudo o que consiste a cultura pop. O objetivo dele é sempre estar fora dos padrões televisivos e, acima de tudo, demonstrar o quão absurda também pode ser a estrutura social estadunidense.

E em The Politician, Murphy, acompanhado de seus companheiros de criação em Glee, Brad Falchuk e Ian Brennan, tenta novamente esfregar esses absurdos na cara da sociedade americana, utilizando-se de todo o seu já característico exagero, mas acaba pecando no excesso caricatural que vai desde os personagens até os cenários mirabolantes.

A trama acompanha Payton Hobart (Bem Platt), um adolescente que desde os oito anos sabe que será presidente dos Estados Unidos e, a partir daí, planeja toda a sua vida com base na trajetória de ex-presidentes do país, para que ele possa alcançar a Casa Branca. Então, acompanhado de seus amigos/assessores, ele inicia a sua caminhada à presidência tentando conquistar o cargo de presidente estudantil de sua escola.

Sabendo que Murphy está trabalhando ao lado de Falchuk e Brennan em uma série que se inicia no ensino médio, não é difícil de se esperar por alguma semelhança com Glee, e elas realmente estão lá, incluindo, logo no primeiro episódio uma belíssima apresentação musical performada por Ben Platt, vencedor do Tony Awards, que de maneira nenhuma teria esse talento não aproveitado. Há também o tom ácido na crítica sobre os valores e comportamentos da classe média americana, além de uma completa ridicularização dos americanos ricos e conservadores.

É um primeiro episódio realmente brilhante e que atende às expectativas sobre uma série que se pretende a tratar sobre a política como parte do todo social, demonstrando que ela está em absolutamente tudo, inclusive nos discursos apolíticos.

Contudo, a partir do segundo episódio, o roteiro se joga de cabeça no que parece ser um emaranhado de situações desnecessárias e clichês dignos de novela mexicana, que não se sustentam em uma série que se pretende a satirizar a caminhada de um político americano, ainda que o elenco seja altamente carismático, o que nos mantém em frente à tela, mesmo com toda a enrolação narrativa, algo que não pode acontecer em uma série com somente oito episódios.

No meio de todas as confusões vividas pelo personagem principal, alguns temas relevantes são trabalhados de maneira muito natural, e é neste ponto que se encontra o trunfo da série. A bissexualidade que não é questionada ou vista como um problema, apenas existe, o suicídio sem julgamento, demonstrado como a saída de um ser humano que não encontrou a ajuda necessária e principalmente a situação de um núcleo aparentemente desconexo, mas que se torna uma das melhores partes da trama, com a relação de uma avó, Dusty, em mais uma brilhante interpretação de Jessica Lange, e a neta Infinity, vivida por Zoey Deutch, que leva ao público a doença munchausen por procuração através de um tom mais leve.

Em seu penúltimo e último episódio, The Politician encontra novamente o ápice alcançado ao início e ficamos de frente com os dilemas de um político, que estão para muito além da simples ética. Esses dilemas se encontram na escolha de sentir ou não sentir, em ser ou não capaz de fazer o que for necessário para alcançar os objetivos, o paradoxo de querer realizar boas atitudes ao mesmo tempo em que se é uma péssima pessoa, porque uma boa pessoa jamais conseguiria enfrentar os obstáculos do terrível jogo da política, onde a vitória não está em governar, mas sim em vencer.

The Politician encerra a sua primeira temporada com o que mais parece ser o primeiro episódio da segunda e com a promessa de algo melhor. A primeira série de Ryan Murphy para a Netflix está longe de ser ruim, se comparada com inúmeras produções que se mantém por anos em locais cômodos, mas aqui a sede por fugir do comodismo levou a trama a momentos vazios e desnecessários. Mas a autenticidade de Murphy se apresenta em momentos cruciais e isso já é o suficiente para esperarmos pela próxima temporada.