Crítica | The Rain – Temporada 1

A vida da Netflix não anda nada fácil. A época em que as suas produções eram sinônimo de qualidade já ficou para trás há algum tempo e para cada série de qualidade ao menos razoável, o serviço lança várias que a existência poderia ter sido evitada. Mas o lado bom dessa investida milionária em uma infinidade de produções, é que a empresa tem desbravado o audiovisual de diversos países e difundido isso pelo mundo. Produções como a belga Tabula Rasa, a alemã Dark, a francesa A Louva-Deus e a brasileira 3%, são alguns dos acertos não estadunidenses da Netflix, assim como a primeira série dinamarquesa do serviço de streaming, The Rain.

A trama de The Rain está ambientada em um futuro não muito distante, no qual uma chuva misteriosa causou a morte de milhares de pessoas. Essas são as informações que os espectadores possuem ao início da narrativa. Não se sabe a causa da chuva, o que há na chuva e a abrangência dessa chuva.

Essa ausência de respostas em um primeiro momento é um grande problema. A série exige durante o seu primeiro episódio, um poderoso exercício de paciência. Focados nos dois personagens principais, os irmãos Simone e Rasmus, a impressão que esses episódios nos dão é a de que não existe a possibilidade de que algo bom saia dali. Os personagens não conseguem exibir qualquer carisma, a direção se mostra absolutamente perdida, assim como existe uma espécie de imprecisão narrativa. Já no segundo episódio, essa atmosfera começa a se dissipar e a série consegue apresentar um roteiro convincente.

Imagem divulgação – The Rain

The Rain não possui absolutamente nada de extraordinário e acaba sendo muito semelhante a outras séries pós-apocalípticas: personagens no meio do nada procurando por uma nova forma de sobreviver. Para que esse tipo de enredo dê certo, o roteiro precisa contar com personagens muito bem elaborados e conflitos que saiam da zona de conforto. Nesse último quesito, a série faz questão de permanecer no comodismo e a trama não é capaz de surpreender. Por outro lado, o roteiro utiliza muito bem o recurso dos flashbacks para aprofundar os personagens, assim, mesmo que a grande narrativa não empolgue, a curiosidade sobre o desenrolar de cada um desses pequenos universos é instigante.

Outro ponto chave para tornar a produção aceitável é a relação entre o roteiro e a direção. Isso não é um elogio. O roteiro possui uma enorme quantidade de falhas, incluindo um episódio que se desconecta completamente da narrativa, assim como a direção encontra dificuldades com as cenas supostamente emocionantes. Nesses momentos, se ambos falhassem a série não funcionaria, quando o roteiro é ruim, a direção é excelente, quando a direção é péssima, o roteiro é o salvador. Esses são aspectos cruciais a serem revistos, caso The Rain ganhe uma segunda temporada.

Ao final, as grandes reviravoltas não são capazes de gerar o impacto esperado, isso porque, como já foi dito, a série sofre por ser previsível e não trabalhar as muitas lacunas deixadas pelo caminho. Ainda assim, o resultado geral é satisfatório. Ao contrário do que tivemos nessa temporada, caso a segunda venha a ser confirmada, os personagens já possuem algumas respostas necessárias para continuar, a busca, a partir de agora, será por soluções. Mas para que a narrativa funcione, The Rain precisa abrir mão do espaço cômodo e se jogar em conflitos mais acirrados, utilizando todas as possibilidades que um mundo pós-apocalíptico proporciona.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: The Rain – 1ª Temporada
  • Criadores: Jannik Tai Mosholt, Christian Potalivo, Esben Toft Jacobsen
  • Direção: Kenneth Kainz, Natasha Arthy
  • Roteiro: Jannik Tai Mosholt, Marie Østerbye, Lasse Kyed Rasmussen, Poul Berg, Mette Heeno}
  • Elenco: Alba August, Lucas Lynggaard Tønnesen, Mikkel Boe Følsgaard, Lukas Løkken, Jessica Dinnage, Sonny Lindberg, Angela Bundalovic, Lars Simonsen, Iben Hjejle, Johannes Kuhnke, Rashid Aitouganov, Inge Lise Goltermann, Anders Heinrichsen, Thea Glindorf, Adam Habib Buratowski, Bertil De Lorenzi