Crítica | Troia: A Queda de Uma Cidade – Temporada 1

Adaptações de grandes obras clássicas sempre evocam questões delicadas, afinal, são textos que de tão clássicos, mesmo raramente lidos pela maioria da população, são praticamente de conhecimento comum. Personagens como Aquiles, Helena e Odisseu não são simplesmente parte integrante de uma grande história, eles figuram no imaginário popular, assim como as principais partes da narrativa, como o famoso cavalo de Troia e, por falar nele, quem nunca ouviu a expressão “presente de grego”? Todavia, o problema não se encontra no fato de que o público conhece toda a trama e o enredo, mas sim na expectativa que todo esse conhecimento gera, levando em consideração o tempo em que vivemos e os principais pontos abordados, até porque, clássicos só são clássicos por terem a capacidade de se comunicar com qualquer época, em qualquer contexto.

Em Troia: A Queda de Uma Cidade a percepção de que a Ilíada, atribuída ao poeta Homero, deveria marcar muito bem as discussões contemporâneas foi absorvida com êxito, mas isso não significa que execução tenha sido bem realizada.

Verdade seja dita, a produção, que foi realizada pela BBC em parceria com a Netflix é muito semelhante a uma novela das seis. Em todos os sentidos. A série se apresenta enquanto um super melodrama, ambientada em cenários pobres e figurinos que não convencem, além de possuir um bom elenco, mas que parece não estar feliz e entrega atuações medíocres. Mesmo com uma história pronta, personagens marcados por personalidades seculares e relações ajudaram a construir os estudos sobre os seres humanos, Troia: A Queda de Uma Cidade não consegue dar um passo a mais e se desenvolver dentro daquilo o que o seu título propõe: a ruína de Troia.

Imagem divulgação – Troia: A Queda de Uma Cidade

Como dito antes, a série faz o esforço de estar em conformidade com o texto original, ao mesmo tempo que promove um eco de debates atuais dentro de sua narrativa: Aquiles e Zeus são retratados enquanto homens negros, Helena é uma grande estrategista, relacionamentos homossexuais são resgatados da obra original e as mulheres possuem papel, voz, opinião e são escutadas. Tudo isso seria fantástico de presenciar na tela se não fosse pelo fato de que nenhum desses personagens é bem explorado, nem mesmo Helena, pivô de toda a destruição, ou Aquiles, peça principal dentro da guerra.

A produção é incapaz de gerar laços críveis entre as relações dos personagens e o público. São diversos casais jogados ao léu com o objetivo de empurrar guela abaixo do espectador qualquer tipo de afeição. O roteiro é formado basicamente por frases de efeito que geralmente soam vazias e não acrescentam em nada na narrativa.

Em todo caso, assistir Troia: A Queda de Uma Cidade não é nenhuma perda de tempo se você se interessa puramente pela mitologia. Nesse aspecto, a produção consegue ser bem sucedida, coisa que não se pode dizer de muitas outras que optaram pelo caminho da adaptação. Mas, se o que você procura são os detalhes, os pormenores, as nuances, a construção de personagens imortais e esses aspectos que fazem de uma produção um verdadeiro bom drama, é muito provável que a série não te agrade e possivelmente te irrite. E, se você é daqueles que procura por grandes batalhas, com grandes coreografias e efeitos especiais, a série passou longe disso.

Troia: A Queda de Uma Cidade ainda não possui confirmação se existirá uma segunda temporada ou se irá se manter no campo das séries limitadas, mas não seria estranho se para aumentar ainda mais o seu catálogo – com produções não necessariamente de qualidade – se a Netflix optasse por dar continuidade e produzisse a adaptação de a Odisseia.

FICHA TÉCNICA:

  • Título: Troy – Fall of a City – 1° Temporada
  • Showrunner: David Farr
  • Direção: Owen Harris, Mark Brozel, John Strickland
  • Roteiro: David Farr, Nancy Harris, Joe Barton, Mika Watkins
  • Elenco: David Gyasi, Jonas Armstrong, Bella Dayne, Inge Beckmann, Shamilla Miller, Peter Butler, Nina Milner, Joe Vaz, Sivan Raphaely, Carl Beukes, Alfred Enoch, Johnny Harris, Chloe Pirrie, Lex King, Woody Norman, Aimee F-Fion Edwards

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