Crítica | História de um Casamento

Não é fácil quando um relacionamento acaba. Mesmo que o término seja bem resolvido, em uma decisão de comum acordo, onde ambas as partes enxergam que a relação não se sustenta mais, ainda sim é muito difícil não viver mais da forma como se vivia antes. Principalmente se esse término vem carregado de novas percepções sobre situações sobre as quais não queríamos enxergar e que, por amor, acaba-se relevando.

Mas isso também não quer dizer que por conta desses fatos, toda a relação deve ser esquecida, jogada fora. Mas o término e as brigas pelo que sobrou, revelam o que há de pior em cada um e a falta de comunicação que existia antes, o que, inclusive, acaba por ser um fator determinante para o fim, torna-se exacerbada, onde somente erros, dores e raivas são jogadas ao vento, atingindo como faca um alvo, que antes já foi porto seguro.

Aqui a história é simples, mas conduzida com tamanha poesia e cuidado, que é capaz de quebrar o coração de qualquer um, como se o término fosse nosso. Mas não só isso, faz com que a gente olhe para nossos próprios relacionamentos, atuais ou passados, e reflita sobre nossos erros, sobre todos esses momentos em que cedemos em escolhas simples, que acabam por se transformarem em imensas bolas de neve, que culminam em avalanches de proporções homéricas.

Noah Baumbach, mais conhecido por seu trabalho em Frances Ha, e por ser companheiro de Greta Gerwig (queremos usar a esposa como referência sim), é de uma sensibilidade tremenda em seu roteiro focado na ruína, na negação, na descrença, no sofrimento e no ressurgir. Além disso, a sua decisão de colocar o machismo em cada uma das linhas e entrelinhas de sua obra é uma decisão extremamente acertada. O casamento ocidental é uma instituição patriarcal, feita para favorecer homens e é exatamente isso o que ela ainda faz.

Scarlett Johansson e Adam Driver são brilhantes. Indicados ao Oscar – Scarlett concorre em duas categorias -, podemos definir a beleza de seus personagem em um momento: quando a personagem Nicole, em um monólogo, descreve e percebe a sua relação com o marido pela primeira vez, ao narrar o seu casamento e perceber o quanto ela havia se anulado para manter-se nele. Enquanto Adam Drive, em seu personagem Charlie, é a representação do desespero ao atacar verbalmente sua ex-esposa, como um homem de ego ferido e absolutamente sem argumentos.

Mas a verdade é que aqui nenhum argumento caberia, mesmo com todos os erros escancarados de Charlie, todas as omissões de Nicole e todo o contexto absurdo que é a sociedade americana, que coloca o dinheiro como a base de tudo – o longa mostra isso com perfeição – o real problema é o fim, é não saber lidar com o fim de algo mesmo que essas pessoas ainda se amem, mesmo que elas continuem ainda se amando após o fim.

História de um Casamento é sobre o amor não ser suficiente para tudo. É sobre demonstrar que amor é ceder, mas também é se encaixar, e encaixar não significa se moldar, mas como no Lego, é um complemento daquilo o que ambos possuem de melhor e a melhora do que ambos possuem de ruim. Comumente, a percepção sobre isso só chega quando algo se perde e somos forçados a recomeçar. E pensando bem, História de um Casamento não é sobre um fim, mas sim sobres dois recomeços.

FICHA TÉCNICA:

  • Direção: Noah Baumbach
  • Roteiro: Noah Baumbach
  • Elenco: Scarlett Johansson, Adam Driver, Laura Dern, Alan Alda, Ray Liotta, Julie Hagerty, Merritt Wever.
  • Música: Randy Newman
  • Fotografia: Robbie Ryan
  • Edição: Jennifer Lane